Monólogo da loucura

Acordei!

Será que dormi?

Que horas são?

Não vou olhar no relógio.

Se não dormi, vou ficar nervosa e não durmo mais.

Tomo mais um quartinho do remédio?

Mas, se eu dormi?

Aí não preciso tomar o remédio.

Olho a hora ou não?

Não, só vou descansar!

Acho que eu não dormi.

Estou tão cansada!

Como gostaria de dormir uma noite inteira!

Ah, o sino…. Uma, duas, três? Duas ou três horas da manhã?

Agora vou olhar. Duas!

Bem que poderiam ser três.

Dormir! Dormir para sempre!

Deus poderia ter dó de mim!

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Três?

Vou tomar mais um quartinho do remédio.

Ah! Se eu tivesse coragem!

Tomaria tudo e acabaria com esta agonia.

Dormir até a Eternidade!

Do que vale a vida?

Eu não tenho ninguém.

Eu não vou fazer falta para ninguém.

Ninguém liga para mim.

Até mesmo meus gatos estão melhor sem mim.

A vida não vale a pena.

A minha vida não vale a pena.

O que será que eu fiz para merecer isto?

Eu estou sendo castigada e não sei o motivo.

Dormir, eu preciso dormir….

Ai, que sede!

Se eu levantar para beber água, eu perco o sono.

Vou esquecer.

Não dá, vou beber água.

Vou tomar também o remédio.

Ah! O sono está vindo….

Ai, que vontade de fazer xixi!

Vou segurar, estou quase dormindo…

Não dá.

Perdi o sono.

Tomo mais remédio?

Não dá. Vou ter que dormir sem ele.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Quatro? Quatro ou cinco?

Este vento nunca me deixa ouvir as badaladas.

Este vento uivando é amaldiçoado.

Desde a minha adolescência, eu odeio este vento.

Eu odeio esta cidade.

Não sei o motivo pelo qual eu voltei.

Será que voltei para morrer?

Se for, se não morrer logo, me mato!

Ah! E a falta de coragem!

Agora estou como fome.

Vou tomar um chazinho de camomila e comer umas torradinhas para ver se me acalmo.

Cinco! Logo, logo é dia.

Se clarear, não durmo mais.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Talvez, se eu dormisse pelo menos um dia….

Seis!

Agora não durmo mais.

Nem com remédio.

Cheiro de pão torrado e café.

Que enjoo!

Barulho….

O inferno começou.

Lá vem uma moto.

Tomara que se estatele num poste!

Inferno! Inferno! Inferno!

Eu sou uma Rapunzel caquética morrendo aos poucos nesta torre de concreto!

Se jogar minha trança, ninguém virá me socorrer.

Será que está sol?

O sol me ofusca!

Minha enxaqueca me mata!

Antes me matasse de verdade!

Fechar tudo.

Tenho que fechar tudo.

Não posso ver o sol.

Não posso respirar este ar.

Este ar vai me matar.

A poluição aqui é insuportável.

O cheiro de gás.

O gás está me envenenando aos poucos.

Fazer cirurgia para quê?

Vou morrer envenenada mesmo!

Se eu dormisse e não acordasse….

A roupa com a qual eu vou ser enterrada já está pronta.

Eu estou pronta!

Eu estou pronta?

Eu não estou pronta!

Eu estou ficando louca.

Eu não quero morrer.

Se eu quisesse morrer, não teria medo de fazer a cirurgia.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Val_3

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Anúncios

2 pensamentos sobre “Monólogo da loucura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s