Eu sobrevivi à minha mãe

Eu nunca quis ser mãe, não sou mãe e nunca serei mãe. Meu relógio biológico nasceu quebrado e nunca soou.

Os motivos são vários, mas acredito que a falta de coragem para arcar com esta responsabilidade foi decisiva.

Eu nunca me senti preparada para assumir tal papel. Eu nunca quis repetir a minha história.

Eu cresci vendo minha mãe sofrer, enlouquecendo a cada passo nosso. Fazendo o seu melhor e nos dando o seu pior. E eu sei que é fácil criticar, e que ela fez tudo para ser uma boa mãe. Mas, pelo menos para mim, ela sempre foi uma nuvem sombria pairando sobre a minha cabeça. Na vã tentativa de me proteger de tudo e todos, ela me fez acreditar – por um bom tempo – que eu não era capaz de fazer nada direito. Tudo o que eu queria era muito difícil, levava muito tempo e alguém tinha morrido frustrado tentando fazer.

Assim, desde pequena, eu fui desistindo de uma coisa atrás da outra.

Pode até ser que eu realmente não tivesse nascido para fazer aquelas coisas, e que a minha falta de aptidão fosse real, mas eu nunca vou saber de verdade, pois eu desisti antes mesmo de realmente tentar. Cada tentativa era – e ainda é – seguida de uma crítica virulenta. Eu nunca, nunquinha mesmo, recebi um elogio da minha mãe que não fosse imediatamente seguido de um grande MAS….

Uma das primeiras coisas que ela me fez desistir foi das artes plásticas. Com medo de que eu tentasse seguir o exemplo do meu pai, ela não nunca poupou críticas e quando alguém dizia que eu tinha jeito para coisa ela mostrava todos os defeitos aparentes nas minhas telas infantis. Depois foi o balé: eu era desajeitada e não nunca conseguiria ser graciosa; o canto e o violão: desafinada!

Ela só não conseguiu fazer com que eu desistisse das aulas de Inglês. Foi uma briga de mais de um mês, pois ela não queria que eu fosse sozinha até a escola. Eu venci esta briga. Ainda bem, pois hoje eu sou professora deste idioma.

Eu consegui ser professora de Inglês em escolas de idiomas apesar dela. Eu nunca tinha pensado em ser professora e quando eu fui convidada pela coordenadora da escola para tentar, ela foi contra.

Aliás, todas as vezes que eu arrumo um novo emprego e começo algo, ela me deseja boa sorte: “Boa sorte, você vai precisar! Você vai ver como é difícil! Não vão te pagar direito, etc.”

Eu sei que esta é a maneira torta que ela tem para me proteger. Ela prefere me desiludir logo de cara, assim eu não vou sofrer. Ela acha que se a crítica vier dela, minha decepção será menor.

Ela conseguiu me prender neste círculo infernal durante toda a minha infância. Eu passei anos me achando feia, barriguda, desajeitada. Ela me fazia acreditar que todos estavam nos julgando o tempo todo e que éramos preteridos. Minha avó preferia as outras tias, e consequentemente, os outros netos. Ela se sentia preterida e, ao invés de nos proteger deste sentimento, ela fazia questão de nos contaminar.

Na minha adolescência, graças às famílias das minhas amigas, eu passei a ver o mundo através das nuvens pretas. Eu vi um mundo bonito, e, melhor ainda, eu vi que eu poderia ter um lugar nele. Esta foi a minha fase “diabólica”. É assim que minha mãe denomina a fase que eu passei a viver, apesar dela.

Eu sei que tudo o que ela fez é inconsciente, e que se é duro viver com uma nuvem negra pairando sobre a sua cabeça. Mil vezes mais duro deve ser, ser a nuvem.

A nuvem dela está cada vez mais negra, e tomou conta completamente dela. Ela não tem forças para lutar contra a escuridão.

Está cada vez mais difícil também, brilhar apesar dela. Eu luto todos os dias para não deixar que ela me ofusque, e que toda a negatividade, maldade e desânimo não me contamine. Eu estou cada vez mais cansada de lutar contra a tempestade.

Eu sobrevivi à minha mãe, ao seu senso crítico, à sua insatisfação crônica, ao seu dever de me informar quão desajeitada eu era – eu sou – para a vida.

Mas está cada vez mais difícil sobreviver à sua depressão e falta de vontade de viver.

A luta diária para achar compaixão por alguém que tão pouco me mostrou este lado é árdua. Ter dó de quem não tem dó de ninguém, é cansativo. Ignorar os comentários maldosos, recalcados e repletos de ressentimento é uma luta diária. Não ressenti-los, é uma batalha homérica.

Até agora eu consegui ver através das nuvens, me afastar da tempestade e sobrevivi aos raios e trovões. Mas eu sinto, cada vez mais forte, a ameaça. Eu sou uma sobrevivente, e espero que meu instinto de sobrevivência seja maior que o meu filial. E para tanto, eu rezo todos os dias: para manter a escuridão longe de mim!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

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