A Mundana Comédia

Eu escrevi este post em 2009. Eu estava muito desapontada com a administração de Natal e queria voltar para São Paulo. Acabei ficando por aqui por causa dos meus alunos e por questões financeiras. No final do ano passado fui morar em Pipa e agora vou voltar para São Paulo. Eu gostaria muito de poder dizer que a situação abaixo mudou, e que Natal voltou a ser uma cidade muito bonita, limpa e segura. Porém, se houve alguma mudança, foi para pior. Eu espero poder voltar aqui dentro de alguns anos e reencontrar aquela cidade pela qual eu me apaixonei. Para que isto aconteça, as pessoas precisam também fazer a sua parte. Não basta cobrar limpeza da Prefeitura e continuar jogando lixo na rua. Não basta reclamar do trânsito e ser o primeiro a não respeitar uma faixa de pedestre; dirigir embriagado; parar em fila dupla; etc. Não basta reclamar que os turistas que consumiam sumiram e fingir que o turismo sexual não existe. O poder público tem uma grande parcela de culpa, mas a recuperação da cidade depende de uma mudança na atitude de todos os seus moradores, inclusive daqueles de fora.

Calçadão de Ponta Negra

http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/03/natal-tem-novo-decreto-de-calamidade-no-calcadao-de-ponta-negra.html

A Mundana Comédia

Eu realizei o sonho de milhares de moradores do Sul e do Sudeste do Brasil. Eu me mudei para o Nordeste, mais precisamente para Natal: a cidade do sol. Muitas pessoas vêm daquelas regiões passar férias aqui e voltam para casa pensando em como seria bom poder viver neste paraíso, ter esta “qualidade de vida”. Eu parei de imaginar, me mudei para cá e, tal como a maioria das pessoas que vêm de lá morar aqui, descobri que alguns sonhos nunca se concretizam pois são baseados numa falsa percepção da realidade, em ideias pré- concebidas ou vendidas como verdadeiras.

Ponta Negra Beach - Natal - RN - Brazil © Stefano Paterna

Ponta Negra – Natal – RN – © Stefano Paterna

Ao contrário de muitas pessoas que se deslumbram com a beleza natural da cidade e simplesmente se mudam para cá sem pensar em mais nada, eu fui enganada. Quando eu decidi morar em Natal, a atual governadora, então prefeita, estava em plena campanha. A praia, o calçadão e as ruas eram limpas todos os dias. A polícia estava presente em todos os lugares e a todas as horas. Os carros paravam para os pedestres atravessarem a rua. Não existiam moradores de rua. A cidade era o principal destino de voos fretados vindos da Europa que traziam famílias inteiras, indo muito além dos tradicionais turistas italianos que vêm para o Nordeste atrás do turismo sexual. Pipa, uma das praias mais bonitas do Brasil, era um paraíso que ficava logo ali. Podia-se encontrar camarões a preço de banana. Mas, tal como aqueles homens que vão para cama com uma deusa e acordam com um bagulho do lado ou, para não ser tão machista, como aquelas mulheres que beijam um príncipe e ele vira um sapo, assim que a governadora foi eleita eu acordei literalmente num brejo cheio de sapos.

A praia e o calçadão continuam a ser limpos, mas não com tanto afinco, e agora cheiram a um misto de urina e peixe podre. Quanto às ruas? Muitas vezes me sinto morando num lixão. E eu moro num dos bairros mais caros de Natal. O número de policiais nas ruas caiu na mesma proporção que a criminalidade aumentou. O crime da moda é o sequestro relâmpago. Qualquer semelhança, não é mera coincidência. Vocês se lembram dos motoristas educados? Desapareceram quando a fiscalização desapareceu. Existem crianças se drogando, pior ainda, se prostituindo em troca de drogas e morando nas ruas. Voos fretados? Só sobraram os cheios de turistas que vêm atrás de sexo. Isto sim, melhorou muito! Prostitutas de todas as idades, tamanhos, sexos e para todos os gostos e bolsos, é  só chegar e escolher. Onde? Em qualquer lugar! Na praia, na rua, no mercado, no shopping. Na última vez que estive num consultório médico, uma prostituta arrumou um “encontro de negócios” para mais tarde em plena sala de espera.  Que eficiência!

Prostituição

http://tribunadonorte.com.br/noticia/prostituicao-e-trafico-de-drogas-continuam-liberados-na-noite-de-ponta-negra/175608

Pipa? Está ficando cada vez mais famosa. Os crimes sempre dão mais publicidade: assaltos, assassinatos, estupros. E os camarões? Estes acabam tendo um gosto amargo quando se descobre que as fazendas que os criam estão ocupando áreas de mangue, poluindo e destruindo tudo ao seu redor. Além disto eles possuem altas taxas de antibiótico e hormônio, as quais, infelizmente, são prejudiciais à saúde. Melhor mesmo é ficar com as bananas.

É claro que eu não pensava que o paraíso era aqui, mas nunca cheguei a pensar que talvez o inferno fosse. Nós, os sonhadores, que deixamos nossas cidades natais para viver na capital potiguar, começamos nossa experiência habitando no limbo. Alguns conseguem viver os seus sonhos por algum tempo mas, sem mais nem menos, nos vemos adentrando nos círculos deste inferno. No segundo círculo, onde o inferno começa realmente, ao tentarmos nos tornar banhistas preguiçosos e frequentar a praia, passamos a ser torturados pelos vendedores ambulantes. Quando estamos de férias ou logo que nos mudamos estas figuras simpáticas não nos incomodam tanto, mas com o passar do tempo, a presença massiva dos “amigos” acaba se tornando um pesadelo. Não se consegue ficar um minuto na praia sem que um “amigo” apareça vendendo alguma coisa “com desconto especial” que na maioria das vezes custa muito mais do que vale e é sempre um produto pirata. O grande problema aqui é que eles não aceitam um não como resposta e a ida à praia, em vez de relaxante, se torna cada vez mais estressante.

“Amigos” Ambulantes

http://tribunadonorte.com.br/noticia/ponta-negra-a-praia-dos-ambulantes/207621

No terceiro círculo somos flagelados pela chuva putrefacta dos esgotos da cidade que, por algum motivo enigmático, insiste em emergir por todos os lados. Uma em cada duas das ruas de Natal tem algum bueiro cuspindo água de esgoto. A prefeitura ajuda jogando o esgoto na praia e dizendo que é água pluvial.  Neste mesmo círculo nos torturam também aqueles indivíduos que insistem em limpar suas vias aéreas em público todo o tempo. Assim todos cospem, escarram e se assoam sem a menor cerimônia e sem nunca ter ouvido falar de um lenço.  É uma verdadeiro festival escatológico.

Esgoto sendo jogado na praia

http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/02/esgoto-ainda-e-despejado-no-mar-da-praia-de-ponta-negra-em-natal.html

No quarto círculo somos torturados pelos avarentos que em vez de comprarem sacos de lixo (tão caros!) jogam o seu na rua. Meu vizinho tem quatro carros na garagem, dois filhos universitários, dois empregados e joga todo o lixo da casa dele no terreno baldio do outro lado da rua. Infelizmente ele não é o único. Quase todos os outros fazem a mesma coisa. É impressionante como muitos estrangeiros que vêm morar em Natal se adaptam a este costume e começam a jogar tudo na rua sem a menor cerimônia. É como se má educação fosse uma doença contagiante.

O nome desta reportagem é : “Praia de Ponta Negra é um lixo só”

http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/praia-de-ponta-negra-e-um-lixo-so/137846

Assim entramos no quinto círculo, onde nós, os insolentes e soberbos ex-moradores do sul – insolentes porque pensamos que como moradores temos o direito de opinar na administração pública da cidade e soberbos porque ao tentar opinar estamos, segundo os Natalenses,  na realidade tentando  demonstrar nossa “superioridade” – devemos  nos movimentar imersos na lama imunda que é formada pelo esgoto, pelo lixo doméstico e comercial e pelas incessantes chuvas (Intermináveis dias de sol? Só se for no paraíso! Lembrem-se: estamos no inferno!).

O que nos faz permanecer neste inferno?. Não sei. Masoquismo? Muitos vão embora. Nós, os hereges que falamos mal desta cidade tão acolhedora, ficamos, como se estivéssemos petrificados pelo olhar de uma Medusa, e acabamos sendo introduzidos no sexto círculo, onde somos açoitados por um dos piores castigos presentes na cidade do sol: o Forró. Não importa a hora, não importa o local, não importa se moramos na periferia ou num bairro de classe alta. Quer gostemos ou não, ouvimos Forró. Nossos ouvidos são açoitados durante o dia inteiro (carros passando na rua, vizinhos, empregados domésticos, festas, etc) e, muitas vezes – muitas mesmo! – durante a noite inteira. É impossível escapar! Assim, depois de sermos acordados inúmeras e incontáveis vezes por este som infernal, cada vez que o ouvimos é como se fôssemos atingidos por flechas. Flechas de fogo que primeiro nos queimam os ouvidos, depois os nervos, e enfim a razão.

Entramos então no sétimo círculo, onde nós, que violamos nossa natureza “mais evoluída” vindo morar aqui, ficamos a princípio caminhando de um lado para outro debaixo deste calor infernal. E depois assistimos, indolentemente embalados por um rede, nossos últimos esforços por permanecermos conectados aos resquícios do mundo civilizado se desvanecerem.

Nem sentimos quando entramos no oitavo círculo, dividido por dez fossos que são ligados por redes. Já não dormimos mais, aquele irritante e enlouquecedor rangido da rede raspando na parede e do gancho enferrujado – nheque, nheque..- não pára nunca. O Brega vem fazer companhia para o Forró em alto e mau tom. Os cascos, digo, os saltos das nossas amigas prostitutas começam a bater incessantemente – toc,toc,toc – e, como aqueles cucos dos desenhos animados, nos garantem uma longa e interminável noite sem sonhos. As estridentes (infernais?) gargalhadas noturnas acompanham o barulho . (Acho que é por causa delas que as pessoas dizem que elas são mulheres de vida fácil. Para rir com tanta vontade assim, tem que se ter um bom motivo!) O cheiro é insuportável: esgoto, lixo, fezes de animais, animais mortos, cigarro e vômito (sendo os dois últimos contribuição dos nossos turistas sexuais às ruas). Iguarias que parecem saborosas são colocadas na nossa frente mas quando provamos o único gosto que sentimos é o do coentro. O pior cancro, porém, é aquele que não podemos sentir nem o cheiro nem o gosto, mas está presente na água nossa de cada dia: o nitrato. Uma substância cancerígena, nada alarmante! Somos colocados numa praia maravilhosa e deslumbrante e de repente chegam nossos “amigos” vendedores ambulantes com seus carrinhos de som potentes, todos tocando o último lançamento de Forró ou Brega. Ao lado se senta um velho caquético com uma, ou um, menor de idade se esfregando nele. Não sabemos se ficamos mais enojados por ver esta cena degradante, por causa do esgoto que vem escorrendo pela areia da praia ou porque o vendedor ambulante está cutucando o dedão do pé com o facão usado para abrir cocos (Deve ser por isso que se lê “cocôs” nas placas das barracas da praia).

Ficamos paralisados de medo, passamos a sentir frio e quando, nós, os traidores dos princípios da civilização, entramos no nono círculo a nossa única salvação para não sermos devorados por Lúcifer é subir num avião e procurar ver o Cruzeiro do Sul enquanto voltamos à nossas queridas cidades natais.

É claro que, para termos uma comédia com um final feliz, necessitamos ainda passar pelo Purgatório para chegar ao Paraíso. Mas aí é uma outra parte da história.

Anúncios

2 pensamentos sobre “A Mundana Comédia

  1. Pingback: A Mundana Comédia | balzaquianos

  2. Pingback: Viva a vida – Ame e reclame! | balzaquianos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s