É falta de homem mesmo!

Resolvi aceitar os conselhos e estou pronta para ir a quantos encontros forem necessários para conhecer o homem que irá resolver os meus problemas.

Eu estou procurando por um daqueles bem trogloditas. Machão, musculoso, que adora uma briga. Tipo eleitor do Bolsonaro e que tem um revólver guardado em algum lugar. Só um tipo assim, pode me ajudar no momento.

Estão confusos? Vou explicar!

Há uns 3 meses eu estava chegando em casa e vi alguns funcionários da Vivo cabeando o prédio onde moro. Fiquei feliz, pois assim teria uma opção a mais. Pensei em ligar no dia seguinte, mas a Vivo não perdeu tempo e me ligou. Ouvi a proposta, disse que pensaria e que qualquer coisa eu ligaria para eles. Desde de então, eles me ligam pelo menos 3 ou 4 vezes por dia. Eu já bloqueei os números, mas eles ligam de números diferentes. Já pedi para eles não ligarem mais, pois não tenho interesse, mas eles continuam ligando. Fui informada por um funcionário que não há como tirar o meu número do cadastro deles e que eles continuarão me ligando. Tentei fazer uma reclamação no site na Anatel, mas como eu não sou cliente deles e não tenho um número de protocolo de reclamação, não há nada o que fazer. Desliguei o volume do meu telefone fixo, pois assim não ouço as ligações. O problema é que acabo não ouvindo as outras ligações também.

Me desculpem, mas isso não é telemarketing, isso é assédio! Como uma companhia pode ser tão estúpida?!!! Eu era uma cliente potencial e agora se eles forem os únicos fornecedores de internet e telefonia restantes na face da terra eu compro um tambor.

E o troglodita? Onde ele entra na história? Sei lá. Talvez ele resolva quebrar uma loja da Vivo, ameaçar algumas pessoas. Talvez a história viralize na Internet e eles parem de me ligar, ou melhor, de me assediar. E se eu consegui sobreviver 3 meses ouvindo coisas não solicitadas de idiotas vários, talvez eu até me acostume com o troglo. Talvez ele saiba se comunicar pelo tambor. Afinal, eles são da mesma era. O que vocês acham?

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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É falta de homem!

 

Por incrível que pareça, esta frase é, ainda, ouvida por muitas mulheres solteiras. É só uma delas reclamar de alguma coisa e ela surge, na versão original ou em outras, mais ou menos diretas.

Como o meu pavio anda meio curto, antes de que alguém me diga o que falta na minha vida, vou dar alguns exemplos de coisas que têm me irritado. Se alguém conhecer algum homem que possa resolvê-las, por favor, me apresente.

  1. Torcida organizada

Ao lado da minha casa, abriu um bar de uma torcida organizada. Eles se reúnem duas vezes por semana (quartas e domingos) para ensaiar: cerveja e instrumentos em punho, eles começam a cantar (gritar) e batucar as mesmas músicas, com os mesmos palavrões, na mesma ordem, até mais ou menos meia-noite. Sem contar os dias de jogos.

Quem me conhece, sabe que eu não me importo muito com futebol. Mas, eu não resisti ao ver tanta empolgação e, agora, virei torcedora fanática: Qualquer time que jogue contra o time deles, é o meu time do coração. Não importa se o time adversário seja o ABC de Várzea Grande do Norte. Meu coração é varzeano nortense!

Não pensem, porém, que tal empolgação repentina se deve apenas a uma pequena aversão causada pelo excesso de zelo da referida torcida. Afinal, se analisarmos bem, ficaremos com pena deles. Que destino cruel eles têm! Ao invés de terem a oportunidade de assistir aos jogos pessoalmente, de gritar e torcer pelos seus ídolos nos estádios, eles se sentam em mesas de plástico, na frente de um bar sujo, para torcer e gritar na frente de uma televisão (não é tela grande). Provavelmente, alguns não devem nem ter família ou, até mesmo, emprego. Afinal, quem pode ficar até meia-noite gritando na rua em plena quarta-feira? Pensando assim, eu quase os perdoei. Quase! Vai lá Várzea Grande do Norte, acabe com eles!

  1. Repasse de notícias falsas nas redes sociais

As pessoas perderam a noção da realidade e no afã de “ajudar” os seus contatos nas redes sociais, saem por aí espalhando rumores e notícias falsas, sem nem piscar, o que dirá checar as fontes. Uma destas notícias iniciou uma crise na minha mãe, que já dura 4 meses.

No início do ano, circulou uma notícia que dizia que o governo Temer tinha mudado as regras do recadastramento para os aposentados e que todos deveriam se recadastrar até o final de fevereiro, caso contrário teriam seus benefícios cortados. Fui ao banco com minha mãe e lá nos informaram que a notícia era falsa. As regras de recadastramento não haviam mudado e que o recadastramento dela continuava sendo em outro mês. Eles nos disseram que a notícia tinha levado muitos idosos às agências sem necessidade. Na verdade, ela se referia ao prazo para que os aposentados que não haviam se recadastrado no ano anterior, fossem às agências e regularizassem a sua situação. Mas, minha mãe ficou preocupada, acabou ficando paranoica e entrou em crise. WhatsApp e Facebook são mídias sociais para interagir com as pessoas que não estão ao nosso lado todos os dias. As notícias que circulam nestes meios não têm nenhuma credencial e muitas vezes nenhuma referência ou trazem o nome do autor. Repassar estas notícias é o carimbo final nesta geração não pensante.

  1. Indiferença aos atos discriminatórios

Que ainda temos um grande caminho ao percorrer para vencermos o racismo, o machismo e outros ismos, não é novidade. Mas a indiferença das pessoas quando veem um ato de discriminação é preocupante. Todos sabem que os americanos são racistas e, se alguém tinha dúvidas, a eleição de Trump deve tê-las elucidado. A diferença é que lá, quando alguém é vítima de racismo, milhares se levantam e protestam.

Eu presenciei um ato de transgressão da lei e racismo que me chocou pela falta de empatia das pessoas ao redor. Um motoqueiro estava fazendo o balão, tendo assim a preferência, um carro veio a toda velocidade sem parar, o motoqueiro conseguiu desviar e caiu na calçada, tirando o capacete e protestando. O motorista do carro, ao invés de parar e ver se o motoqueiro tinha se machucado, colocou a cabeça para fora da janela e gritou: “Vai trabalhar no circo, macaco! ” Neste momento haviam muitas pessoas no calçadão e nenhuma delas se dignou a se indignar. O motoqueiro colocou o capacete de volta e continuou o seu caminho. Eu voltei para casa, com vergonha de ser brasileira, pela primeira vez na minha vida.

  1. Lixo nas ruas, terrenos baldios e quintais

Todos os anos é a mesma coisa. O lixo se acumula em todos os lugares, veem as chuvas, os mosquitos se proliferam, as pessoas começam a adoecer, algumas morrem, o governo começa a fazer campanha e, só então, as pessoas começam a limpar o lixo. Não adianta fazer campanha educativa. As pessoas perderam capacidade de aprender. Eu aposto que se, ao invés de campanhas educativas, elas começassem a receber multas ao terem suas casas vistoriadas, muitas delas limpariam seus terrenos e quintais com mais afinco. Desde que, é claro, os fiscais sejam honestos e não possam ser subornados! Tudo bem. Entendi o absurdo da hipótese!

Enfim, só alguns exemplos de coisas que têm me indignado um pouco, ou melhor, muito. É, talvez, eu precise melhorar um pouco meu humor. Algum candidato?

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Feliz 2018

Eu gostaria de agradecer a todos que me ajudaram durante este ano que se encerra, principalmente aqueles que se fizeram presentes, seja fisicamente ou moralmente, através de atos ou palavras de apoio. Sem a sua ajuda, tudo teria sido muito mais difícil. Muitíssimo obrigada e que durante o próximo ano, vocês recebam em dobro tudo o que, generosamente, doaram durante este. Que possamos ajudar uns aos outros e aos necessitados e que encontremos tempo para cultivar as nossas amizades, nunca deixando nos abater pelas dificuldades e tentando sempre buscar o melhor que a vida tem a nos oferecer. Que 2018 seja um ano de realizações de sonhos e que todos tenhamos saúde, física e mental, para poder vivê-los plenamente. Amo vocês.

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Amor a toda prova

Eu sempre achei que o amor tinha que ser fácil: sem dramas, sem brigas e sem sacrifícios. Nunca me comovi com paixões extremas. Embora aprecie muito as obras de grandes autores, tais como Shakespeare, um amor devastador como o de Romeo e Julieta só teria lugar na ficção, na minha opinião. Mas, como tudo na vida, o ideal, talvez, esteja no meio termo. Sei que, se houvesse feito algumas concessões, eu não estaria sozinha. Não me arrependo de não as ter feito. Acho que se tivesse, aí sim, teria me arrependido.

Mas, não posso deixar de admirar aqueles que lutam com unhas e dentes pelo seu amor. Eles brigam, se separam, resolvem as diferenças e voltam a viver juntos. Eles não desistem um do outro. Eles constroem, destroem e reconstroem o seu amor diariamente e, tal qual Fênix, ele renasce das cinzas, cada vez mais forte. Cada vez trazendo ao mundo mais uma prova do seu amor. Um pedacinho de cada, com luz e vida própria, mostrando a todos que toda forma de amar vale a pena. Eles não têm medo de serem julgados. Vivem a sua vida e o seu amor da melhor forma que podem, pois têm a certeza de que é este sentimento tão arrebatador que os fortalece e os une, formando laços cada vez mais fortes, criando vidas, ensinando-os a viver o seu amor e conciliando as suas diferenças. Para eles, uma alma gêmea não é aquela nascida para completar a outra; é aquela moldada, às vezes a ferro e fogo. Forjam, assim, o seu destino, o seu amor e a sua família. Lutam sempre, perdem algumas vezes, mas sempre ganham no fim. Percorrem o caminho dos bravos, onde somente os muito corajosos e puros de coração – capazes de tudo perdoar – não se perdem. O seu destino? Aquele que escolherem!

Stefano Paterna Venedig-18

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Monólogo da loucura 3

Esta sala é muito escura, sem vida, nem parece uma casa.

A manta e as almofadas novas são muito claras, vão sujar e estragar logo.

As lâmpadas são brilhantes demais, não dá nem para abrir os olhos.

Os quadros ficaram altos demais. Não gostei.

Não gostei das fotos nos porta-retratos.

Não aguento esta máquina de lavar roupas, faz muito barulho.

A máquina de lavar nova não faz barulho, mas é grande demais. Meu Deus, que exagero. Por que uma máquina tão grande?

Toda a vez que vou sair do meu quarto, tropeço no pé da cama.

Agora não tropeço mais no pé da cama, mas tenho que dar a volta nela para pegar qualquer coisa na cômoda. Não aguento andar tanto. Estou cansada.

Eu não aguento mais comer sempre a mesma coisa.

A canja está insossa. A caldo de carne está salgado demais. O arroz está duro. O peixe está temperado demais. O frango está seco. O pão está duro demais. O pão está mole demais. O macarrão está sem gosto. O molho está com alho demais. Os legumes estão duros. A mandioquinha cozinhou demais. A banana está madura demais. A banana está verde. O mamão pequeno está com uns carocinhos duros. O mamão Formosa é grande demais, vai estragar. Eu não consigo mastigar. Eu estou enjoada. O chocolate faz uma massa na boca e não derrete. O pêssego está duro demais.

Preciso tomar vitaminas, estou fraca demais.

Não consigo engolir os comprimidos.

Não consigo tomar a vitamina em pó, é muito ruim.

O antidepressivo está me deixando muito ansiosa e não me deixa descansar.

O calmante está me deixando muito mole e eu não consigo me levantar.

O chuveiro está muito quente.

O chuveiro está frio demais.

Preciso ter alguém para me ajudar.

Não aguento esperar pela moça que vem ajudar. Peça para ela não vir.

Estou como fome.

Não tem nada para comer. Já enjoei de tudo o que tem.

Quero me distrair para ver se fico um pouco menos ansiosa.

Não quero nem ver, nem ler jornal. É só desgraça. Não quero ver novela ou ver revistas, é muito fora da realidade. Não quero ver séries, pois não aguento ler as legendas. Não quero ler. Não consigo me concentrar. Pintar está me deixando nervosa. Não quero dar uma volta. Não quero sair de casa. Eu não aguento mais de ansiedade.

Estou com dor no corpo inteiro.

Não quero tomar remédio para dor. Não quero ir ao médico. Não quero fazer fisioterapia.

Meu colchão é duro demais.

Meu colchão novo é mole demais.

Meu outro colchão é duro demais.

O “pillow top” é torto.

Quero dormir.

Só consigo dormir tomando remédio. Estou tomando os remédios errados. Eu não preciso destes remédios. Eu estou cansada. Eu não consigo engolir os comprimidos. Eu não quero. Eu não posso. Eu estou cansada. Eu estou cansada. Eu estou cansada.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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A menininha

Era uma vez uma linda menininha. Uma princesinha loira e branquinha, tão encantadora que todos se apaixonavam assim que a viam. Tanta beleza atraiu logo os olhos invejosos da Maldade, que tentou ferir a menininha, lançando no seu corpo e na sua alma agulhas de despeito. Felizmente, as agulhas não atingiram o alvo e deixaram apenas algumas cicatrizes no corpo, pois a sua alma, tal como a de sua mãe, era daquele tipo que esquece e perdoa seus algozes.

Mas, a menininha, tendo batido a Maldade, começou a crescer com a ilusão de que tinha superpoderes e testava-os a cada oportunidade. Gatinha equilibrista no muro e na árvore. Pulando das alturas, atingindo o chão. Levitando sobre a pia do banheiro. Deixando o seu anjo da guarda enlouquecido e exausto. Algumas pessoas chegaram até duvidar do anjo, pobre coitado. Pois uma perninha quebrada aqui, uns pontinhos ali, sangue escorrendo dos múltiplos machucadinhos. O que eles não sabiam é que, devido ao grande risco que a menininha sempre corria, os pequenos arranhões que ela sofria, não eram distração do seu anjo, e sim avisos para que ela não se arriscasse tanto, para mostrar-lhe que ela tinha limites humanos, apesar dos seus superpoderes.

Tantas idas e vindas do hospital e do pronto socorro fizeram com que ela se interessasse por aqueles homens e mulheres que estavam sempre prontos para ajudá-la a colocar no lugar o que quer que seja que ela tivesse tirado fora. Sendo assim a menininha decidiu se tornar uma consertadora de gente. Escolheu consertar anjinhos que nascem de asa quebrada, pois se lembrou que em tão tenra idade a Maldade tentou também lhe ferir, e ela a venceu. Hoje em dia, luta contra a Maldade e a Fatalidade, tentando livrar os anjinhos das suas garras sujas. Muitas vezes vencendo, algumas perdendo, mas nunca perdendo a Esperança e a Alegria, suas companheiras de vida.

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Meu segundo amor

Há 9 anos eu conheci meu segundo amor. Do primeiro eu havia escapado corajosamente, ao vislumbrar uma vida minada por crises de ciúmes. Ao fugir do primeiro, ao escolher a razão sobre a emoção, ao sofrer demasiadamente para me manter afastada, eu achava que havia perdido a capacidade de me apaixonar perdidamente por alguém novamente. Mas, fui surpreendida, ao ser invadida por sentimentos tão fortes, tantos anos depois. Aquela sensação de que todo o resto é supérfluo. Aquela certeza de que tudo o que você fez na sua vida, o fez para estar ali, junto daquela pessoa. De que não existe outro lugar tão perfeito para recostar a sua cabeça além daquele ombro ao seu lado. Aquela falta de ar, ao perder de vista o objeto do seu amor. Aquela sensação de estar finalmente em casa, de poder dormir em paz, um sono com sonhos bons. E, tal como o primeiro, o meu segundo amor também foi correspondido. O ciúme, porém, ficou fora de cena. Mas, o fato de termos vidas distintas em lugares diferentes nos causou sofrimento, à medida que víamos que o dia de nos separarmos chegava cada vez mais próximo. Achávamos que éramos as pessoas certas, na hora errada. Nos separamos de corações quebrados. E aquele foi um ano de idas e vindas. De discussões sobre ficarmos ou partirmos juntos. Em todas elas, chegávamos à mesma conclusão: o sacrifício seria grande demais. Mais uma vez eu deixei a razão vencer a emoção. Todos, inclusive a minha mãe, achavam que eu deveria partir com ele. Viver o meu grande amor. Mas eu não acredito em sacrifícios em nome do amor. Eu fiquei. De coração quebrado, mas fiquei. Ele foi. De coração quebrado, mas foi. Mas, ele voltou mais algumas vezes. Todas as vezes que ele volta, eu rezo para que eu me sinta diferente em relação a ele. Mas, não importa quanto tempo nós fiquemos afastados, quando nos encontramos é como se o tempo houvesse parado. Nada de estranho, tudo se encaixa naturalmente. É como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Já nem falamos mais em ficar ou ir. Temos nossas vidas, em países diferentes, com culturas diferentes. Por um acaso, nos encontramos no meio do caminho, um caminho que não é o meu, nem é o dele. Covardes, não colocamos nosso amor à prova. Quem sabe se sobreviveria? O problema é que acabamos nos acomodando, temos um ao outro, mas vivemos a maior parte do tempo sozinhos. Nos amamos, mas não estamos juntos nem nos momentos bons, nem nos ruins. E, talvez, depois de 9 anos, seria inteligente pensar que não somos as pessoas certas, na hora errada. Depois de 78840 horas, seria prudente pensar que, talvez, sejamos as pessoas erradas, na hora errada, no lugar errado. Mas, desde de quando o amor é inteligente e prudente? O meu, infelizmente, o é. Talvez seja a hora de conhecer o meu terceiro amor. Um amor sem ciúmes, que esteja no lugar certo e na hora certa. Talvez, eu esteja pedindo demais. Mas, nunca se sabe. Talvez seja como dizem em inglês: “The third time’s the charm”.

Stefano Paterna Venedig-18

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Imaginação

“Logic will get you from A to Z; imagination will get you everywhere.”
Albert Einstein

Albert Einstein disse que a lógica pode nos levar de A até Z e que a imaginação nos leva a todos os lugares.

E o que podemos fazer quando a imaginação substitui completamente a lógica e os lugares a que somos levados são todos sombrios?

O que fazer quando a imaginação deixa de sonhar e só nos traz pesadelos?

Qual é a lógica por trás do funcionamento de um cérebro que não está querendo mais funcionar?

Onde está a tomada? Onde desligamos a corrente? Quando poderemos ligá-la novamente?

Quem escolhe o caminho: a lógica ou a imaginação?

Será a realidade tão dura, que a imaginação decide logicamente deixar de seguir a lógica real?

Será a lógica tão dura, que nem a imaginação consegue fugir da realidade?

Por que criar uma realidade imaginária pior do que a realidade?

É, realmente, a lógica não nos levará a lugar nenhum. Só nos resta imaginar como alguém sofre ao trocar a realidade por pesadelos constantes e aterradores e rezar para que a nossa imaginação continue nos levando para mundos melhores – agora e sempre!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Alex

Antes mesmo de aprender a usá-las corretamente, Alex descobriu o imenso valor das pernas. Ainda bebê, sentado no chão de terra batida do casebre no qual nasceu, descobriu que, se as esticasse e encolhesse rapidamente, conseguia sair do lugar e, consequentemente, fora do caminho do seu pai. Assim que ouvia o portão rangendo, as pernas do pequenino se contraíam e esticavam até que ele estivesse a salvo debaixo da mesa, do armário ou da cama. Essa habilidade aracnídea livrou-o dos pontapés e chutes disferidos pelo seu genitor, que tinham como alvo tudo e todos que ousassem cruzar o seu caminho tortuoso entre a porta e o sofá. Alex já havia cansado de ser bola chutada a escanteio, dor tão doída que o deixava mudo, sem lágrimas, gemendo baixinho no canto mesmo onde caía que, ao descobrir o caminho da salvação, havia nascido de novo. Portão rangendo, pernas de aranha, o mundo seguro e sem dor visto por debaixo dos poucos móveis. E assim, como por um milagre, Alex vingou. O primeiro filho do casal que sobreviveu aos pais. Logo suas pernas finas se firmaram e o menininho começou a andar e a porta da sua casa abriu-se para o mundo. Durante o dia corria no quintal atrás das galinhas e do cachorro sarnento, durante a noite embolavam-se menino e cachorro embaixo de qualquer coisa que lhes desse abrigo e não os deixasse à vista do pai. A mãe, coitada, era grande demais para caber embaixo das coisas e, religiosamente, recebia os chutes e socos do marido, cuspindo um dente aqui e outro acolá, a carne mais sovada do que pão, ossos meio tortos. Mas, valente, sempre se levantava no dia seguinte e, se não tinham muito o que comer, sobreviviam com o que Deus dava. Um bocadinho de café e cuscuz. Das galinhas magras era aproveitado até o sangue, que tinha um gosto esquisito, mas que, segundo a mãe, era muito bom para crescer.

Um dia o pai chegou de mansinho e, pegando Alex distraído, resolveu dar-lhe todos os pontapés e chutes guardados desde a última vez que tinha conseguido acertar o menino. A mãe geralmente não se metia com o marido, mas viu que, se não interferisse, ele acabaria aleijando o filho. A fúria do homem então se voltou toda contra ela. Alex assistiu através da frestinha do olho inchado de tanta pancada que ainda conseguia abrir, o pai matando a mãe.

No orfanato Alex foi feliz. Podia jogar bola com os outros meninos, correndo o campo todo, rápido como o vento. Tinha uma cama quentinha e comida todos os dias. Até o dia que seu tio veio buscá-lo, ele viveu como num sonho. Acordou dentro de um pesadelo. O tio tinha o mesmo gênio do pai e, depois da terceira surra, as pernas de Alex o levaram para longe dali, rumo à capital. Ao ver a praia pela primeira vez, o menino pensou que tinha morrido e chegado ao paraíso. Suas pernas não se cansavam de correr pela areia, seus pés encharcados de água até os tornozelos.

Flanelinha, Alex, rápido e simpático, conseguia dinheiro suficiente para comer todos os dias. Dormir enrolado embaixo de alguma marquise não era tão diferente do que dormir embaixo dos móveis familiares. Não tivesse conhecido o orfanato, poderia dizer que era feliz.

Mas, como tem gente ruim em casa, na rua também tem. Alex passou a ser alvo dos outros moleques maiores. Eles ficavam o dia inteiro sem trabalhar e depois se juntavam para tirar o dinheiro do menino. Ele, sendo mais rápido, conseguia fugir algumas vezes. Mas, quando apanhado, sentia na carne a vingança dos outros.

Foram eles que deram crack para o Alex provar. Ao inalar a fumaça, Alex sentiu que suas pernas ficaram tão leves, tão leves que criaram asas. As asas de Alex o levaram para longe, muito longe, para um mundo que ele não sabia que podia existir, para uma felicidade que parecia infinita.

Alex nunca mais quis deixar que seus pés pousassem por muito tempo no chão. Trabalhava dia e noite olhando carros para conseguir o dinheiro da droga, e, quanto mais alto voava, mais alto queria voar. Mas até mesmo pernas voadoras têm que comer. O dinheiro escasso não dava para as duas coisas. Mendigar um prato de comida pela primeira vez doeu tanto quanto uma surra das bem dadas. Mas, aquelas pernas se adaptavam a tudo e, ao invés de correrem incansáveis de um lado para outro o dia inteiro, cruzaram-se sentadas num chão de uma esquina, as pupilas dilatadas, o coração acelerado, a boca seca e as mãos em súplica.

As brigas por causa da droga, os pequenos furtos atraíram a polícia, que passou por lá deixando sua marca nos corpos daqueles farrapos humanos. Agora Alex jaz deitado no chão da esquina, encolhido num canto, tão magro e queimado de sol que sua pele parece enrugada, sua boca quase em dentes e seu olhar apagado nos lembram o de um ancião. Ele se sente cansado, um velho de 15 anos. Não que ele saiba sua própria idade. Pessoas como ele não têm idade. Elas têm anos de sofrimento. Sofrem surras, injúrias, fome, sede, cansaço, frio, humilhações e indiferença. Sofrem até o dia em que Deus sente piedade delas e as levam daqui para um mundo melhor, sem sofrimento. Ao chegar neste mundo, as pernas de Alex voltam a criar asas e lá vai ele correndo, voando, jogando bola nos gramados verdejantes infinitos, abrindo um sorriso cheio de dentes branquinhos, inteiros.

 Não tem nada que me deixe mais triste do que ver pessoas abandonadas nas ruas. O termo morador de rua é uma ironia. Ninguém mora na rua. Ninguém escolhe conscientemente ir para a rua. A rua não é uma opção. As pessoas são abandonadas lá por suas famílias e pela sociedade, que passa por elas, indiferente, escolhendo vê-las como a parte feia e suja da paisagem urbana.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Meu novo livro

Acabei o meu segundo livro!

Mas, ao contrário da outra vez, meus amigos e familiares não precisam se preocupar em ter que comprar o livro. Aliás, a probabilidade de eles o lerem é muito pequena. E, mesmo se o fizerem, não saberão que fui eu quem o escreveu.

O meu segundo livro não é exatamente meu. Fui eu quem o escreveu, mas meu nome não aparecerá em lugar nenhum. Ele é o fruto de um contrato de “ghost writing”. Não se preocupem: eu não precisei experimentar nenhum fenômeno sobrenatural para fazê-lo.

Uma pessoa me contratou para que eu escrevesse o livro no seu lugar. Ela me passou um tema e as linhas gerais para cada capítulo. Me enviou alguns textos para inspiração e gravou alguns vídeos com as ideias principais de cada capítulo. Coube a mim desenvolvê-las.

A prática não é muito divulgada, mas é, com certeza, muito utilizada.

Muitas pessoas têm boas ideias, mas, muitas vezes, não têm nem o tempo, nem a habilidade para colocá-las no papel. Ao contratar um “ghost writer”, elas têm a chance de divulgar suas ideias para o público em geral.

Para ser um “ghost writer” é preciso ter muita paciência e, principalmente, muita humildade. Quando escrevemos para os outros temos que acatar os seus pontos de vista. Somos obrigados a reescrever os textos até que eles estejam de acordo com o tom que a pessoa que o contratou quer. Mesmo que, na sua opinião, o texto fique pior do que era originalmente.

O desafio é grande. Temos que aprender a pensar como a pessoa pensaria. Temos que nos retirar de cena e comandar tudo nos bastidores. Temos que saber que os créditos nunca serão nossos.

Mas, como tudo tem o seu lado bom e o seu lado ruim, se não temos os créditos, também não temos as responsabilidades. Se o livro vender bem ou não, o meu pagamento já está feito. Eu não preciso constranger amigos e familiares a comprarem meu livro, e, pior ainda, a lerem e comentarem um livro que nunca teriam comprado ou lido se não fosse pelos laços de amizade e familiares. Não terei que cobrar pelos livros não pagos ou ficar envergonhada por cobrar por algo que, se pudesse, daria de graça para todos.

Talvez, quem sabe, um dia meus dois livros se encontrem em um canto qualquer de uma livraria. E, embora completamente distintos, se sintam atraídos um pelo outro e se tornem amigos inseparáveis, unidos pela irmandade da alma. Só rezo para que a atração não seja tamanha que os levem a um caso incestuoso.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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