Monólogo da loucura 3

Esta sala é muito escura, sem vida, nem parece uma casa.

A manta e as almofadas novas são muito claras, vão sujar e estragar logo.

As lâmpadas são brilhantes demais, não dá nem para abrir os olhos.

Os quadros ficaram altos demais. Não gostei.

Não gostei das fotos nos porta-retratos.

Não aguento esta máquina de lavar roupas, faz muito barulho.

A máquina de lavar nova não faz barulho, mas é grande demais. Meu Deus, que exagero. Por que uma máquina tão grande?

Toda a vez que vou sair do meu quarto, tropeço no pé da cama.

Agora não tropeço mais no pé da cama, mas tenho que dar a volta nela para pegar qualquer coisa na cômoda. Não aguento andar tanto. Estou cansada.

Eu não aguento mais comer sempre a mesma coisa.

A canja está insossa. A caldo de carne está salgado demais. O arroz está duro. O peixe está temperado demais. O frango está seco. O pão está duro demais. O pão está mole demais. O macarrão está sem gosto. O molho está com alho demais. Os legumes estão duros. A mandioquinha cozinhou demais. A banana está madura demais. A banana está verde. O mamão pequeno está com uns carocinhos duros. O mamão Formosa é grande demais, vai estragar. Eu não consigo mastigar. Eu estou enjoada. O chocolate faz uma massa na boca e não derrete. O pêssego está duro demais.

Preciso tomar vitaminas, estou fraca demais.

Não consigo engolir os comprimidos.

Não consigo tomar a vitamina em pó, é muito ruim.

O antidepressivo está me deixando muito ansiosa e não me deixa descansar.

O calmante está me deixando muito mole e eu não consigo me levantar.

O chuveiro está muito quente.

O chuveiro está frio demais.

Preciso ter alguém para me ajudar.

Não aguento esperar pela moça que vem ajudar. Peça para ela não vir.

Estou como fome.

Não tem nada para comer. Já enjoei de tudo o que tem.

Quero me distrair para ver se fico um pouco menos ansiosa.

Não quero nem ver, nem ler jornal. É só desgraça. Não quero ver novela ou ver revistas, é muito fora da realidade. Não quero ver séries, pois não aguento ler as legendas. Não quero ler. Não consigo me concentrar. Pintar está me deixando nervosa. Não quero dar uma volta. Não quero sair de casa. Eu não aguento mais de ansiedade.

Estou com dor no corpo inteiro.

Não quero tomar remédio para dor. Não quero ir ao médico. Não quero fazer fisioterapia.

Meu colchão é duro demais.

Meu colchão novo é mole demais.

Meu outro colchão é duro demais.

O “pillow top” é torto.

Quero dormir.

Só consigo dormir tomando remédio. Estou tomando os remédios errados. Eu não preciso destes remédios. Eu estou cansada. Eu não consigo engolir os comprimidos. Eu não quero. Eu não posso. Eu estou cansada. Eu estou cansada. Eu estou cansada.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Meu segundo amor

Há 9 anos eu conheci meu segundo amor. Do primeiro eu havia escapado corajosamente, ao vislumbrar uma vida minada por crises de ciúmes. Ao fugir do primeiro, ao escolher a razão sobre a emoção, ao sofrer demasiadamente para me manter afastada, eu achava que havia perdido a capacidade de me apaixonar perdidamente por alguém novamente. Mas, fui surpreendida, ao ser invadida por sentimentos tão fortes, tantos anos depois. Aquela sensação de que todo o resto é supérfluo. Aquela certeza de que tudo o que você fez na sua vida, o fez para estar ali, junto daquela pessoa. De que não existe outro lugar tão perfeito para recostar a sua cabeça além daquele ombro ao seu lado. Aquela falta de ar, ao perder de vista o objeto do seu amor. Aquela sensação de estar finalmente em casa, de poder dormir em paz, um sono com sonhos bons. E, tal como o primeiro, o meu segundo amor também foi correspondido. O ciúme, porém, ficou fora de cena. Mas, o fato de termos vidas distintas em lugares diferentes nos causou sofrimento, à medida que víamos que o dia de nos separarmos chegava cada vez mais próximo. Achávamos que éramos as pessoas certas, na hora errada. Nos separamos de corações quebrados. E aquele foi um ano de idas e vindas. De discussões sobre ficarmos ou partirmos juntos. Em todas elas, chegávamos à mesma conclusão: o sacrifício seria grande demais. Mais uma vez eu deixei a razão vencer a emoção. Todos, inclusive a minha mãe, achavam que eu deveria partir com ele. Viver o meu grande amor. Mas eu não acredito em sacrifícios em nome do amor. Eu fiquei. De coração quebrado, mas fiquei. Ele foi. De coração quebrado, mas foi. Mas, ele voltou mais algumas vezes. Todas as vezes que ele volta, eu rezo para que eu me sinta diferente em relação a ele. Mas, não importa quanto tempo nós fiquemos afastados, quando nos encontramos é como se o tempo houvesse parado. Nada de estranho, tudo se encaixa naturalmente. É como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Já nem falamos mais em ficar ou ir. Temos nossas vidas, em países diferentes, com culturas diferentes. Por um acaso, nos encontramos no meio do caminho, um caminho que não é o meu, nem é o dele. Covardes, não colocamos nosso amor à prova. Quem sabe se sobreviveria? O problema é que acabamos nos acomodando, temos um ao outro, mas vivemos a maior parte do tempo sozinhos. Nos amamos, mas não estamos juntos nem nos momentos bons, nem nos ruins. E, talvez, depois de 9 anos, seria inteligente pensar que não somos as pessoas certas, na hora errada. Depois de 78840 horas, seria prudente pensar que, talvez, sejamos as pessoas erradas, na hora errada, no lugar errado. Mas, desde de quando o amor é inteligente e prudente? O meu, infelizmente, o é. Talvez seja a hora de conhecer o meu terceiro amor. Um amor sem ciúmes, que esteja no lugar certo e na hora certa. Talvez, eu esteja pedindo demais. Mas, nunca se sabe. Talvez seja como dizem em inglês: “The third time’s the charm”.

Stefano Paterna Venedig-18

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Alex

Antes mesmo de aprender a usá-las corretamente, Alex descobriu o imenso valor das pernas. Ainda bebê, sentado no chão de terra batida do casebre no qual nasceu, descobriu que, se as esticasse e encolhesse rapidamente, conseguia sair do lugar e, consequentemente, fora do caminho do seu pai. Assim que ouvia o portão rangendo, as pernas do pequenino se contraíam e esticavam até que ele estivesse a salvo debaixo da mesa, do armário ou da cama. Essa habilidade aracnídea livrou-o dos pontapés e chutes disferidos pelo seu genitor, que tinham como alvo tudo e todos que ousassem cruzar o seu caminho tortuoso entre a porta e o sofá. Alex já havia cansado de ser bola chutada a escanteio, dor tão doída que o deixava mudo, sem lágrimas, gemendo baixinho no canto mesmo onde caía que, ao descobrir o caminho da salvação, havia nascido de novo. Portão rangendo, pernas de aranha, o mundo seguro e sem dor visto por debaixo dos poucos móveis. E assim, como por um milagre, Alex vingou. O primeiro filho do casal que sobreviveu aos pais. Logo suas pernas finas se firmaram e o menininho começou a andar e a porta da sua casa abriu-se para o mundo. Durante o dia corria no quintal atrás das galinhas e do cachorro sarnento, durante a noite embolavam-se menino e cachorro embaixo de qualquer coisa que lhes desse abrigo e não os deixasse à vista do pai. A mãe, coitada, era grande demais para caber embaixo das coisas e, religiosamente, recebia os chutes e socos do marido, cuspindo um dente aqui e outro acolá, a carne mais sovada do que pão, ossos meio tortos. Mas, valente, sempre se levantava no dia seguinte e, se não tinham muito o que comer, sobreviviam com o que Deus dava. Um bocadinho de café e cuscuz. Das galinhas magras era aproveitado até o sangue, que tinha um gosto esquisito, mas que, segundo a mãe, era muito bom para crescer.

Um dia o pai chegou de mansinho e, pegando Alex distraído, resolveu dar-lhe todos os pontapés e chutes guardados desde a última vez que tinha conseguido acertar o menino. A mãe geralmente não se metia com o marido, mas viu que, se não interferisse, ele acabaria aleijando o filho. A fúria do homem então se voltou toda contra ela. Alex assistiu através da frestinha do olho inchado de tanta pancada que ainda conseguia abrir, o pai matando a mãe.

No orfanato Alex foi feliz. Podia jogar bola com os outros meninos, correndo o campo todo, rápido como o vento. Tinha uma cama quentinha e comida todos os dias. Até o dia que seu tio veio buscá-lo, ele viveu como num sonho. Acordou dentro de um pesadelo. O tio tinha o mesmo gênio do pai e, depois da terceira surra, as pernas de Alex o levaram para longe dali, rumo à capital. Ao ver a praia pela primeira vez, o menino pensou que tinha morrido e chegado ao paraíso. Suas pernas não se cansavam de correr pela areia, seus pés encharcados de água até os tornozelos.

Flanelinha, Alex, rápido e simpático, conseguia dinheiro suficiente para comer todos os dias. Dormir enrolado embaixo de alguma marquise não era tão diferente do que dormir embaixo dos móveis familiares. Não tivesse conhecido o orfanato, poderia dizer que era feliz.

Mas, como tem gente ruim em casa, na rua também tem. Alex passou a ser alvo dos outros moleques maiores. Eles ficavam o dia inteiro sem trabalhar e depois se juntavam para tirar o dinheiro do menino. Ele, sendo mais rápido, conseguia fugir algumas vezes. Mas, quando apanhado, sentia na carne a vingança dos outros.

Foram eles que deram crack para o Alex provar. Ao inalar a fumaça, Alex sentiu que suas pernas ficaram tão leves, tão leves que criaram asas. As asas de Alex o levaram para longe, muito longe, para um mundo que ele não sabia que podia existir, para uma felicidade que parecia infinita.

Alex nunca mais quis deixar que seus pés pousassem por muito tempo no chão. Trabalhava dia e noite olhando carros para conseguir o dinheiro da droga, e, quanto mais alto voava, mais alto queria voar. Mas até mesmo pernas voadoras têm que comer. O dinheiro escasso não dava para as duas coisas. Mendigar um prato de comida pela primeira vez doeu tanto quanto uma surra das bem dadas. Mas, aquelas pernas se adaptavam a tudo e, ao invés de correrem incansáveis de um lado para outro o dia inteiro, cruzaram-se sentadas num chão de uma esquina, as pupilas dilatadas, o coração acelerado, a boca seca e as mãos em súplica.

As brigas por causa da droga, os pequenos furtos atraíram a polícia, que passou por lá deixando sua marca nos corpos daqueles farrapos humanos. Agora Alex jaz deitado no chão da esquina, encolhido num canto, tão magro e queimado de sol que sua pele parece enrugada, sua boca quase em dentes e seu olhar apagado nos lembram o de um ancião. Ele se sente cansado, um velho de 15 anos. Não que ele saiba sua própria idade. Pessoas como ele não têm idade. Elas têm anos de sofrimento. Sofrem surras, injúrias, fome, sede, cansaço, frio, humilhações e indiferença. Sofrem até o dia em que Deus sente piedade delas e as levam daqui para um mundo melhor, sem sofrimento. Ao chegar neste mundo, as pernas de Alex voltam a criar asas e lá vai ele correndo, voando, jogando bola nos gramados verdejantes infinitos, abrindo um sorriso cheio de dentes branquinhos, inteiros.

 Não tem nada que me deixe mais triste do que ver pessoas abandonadas nas ruas. O termo morador de rua é uma ironia. Ninguém mora na rua. Ninguém escolhe conscientemente ir para a rua. A rua não é uma opção. As pessoas são abandonadas lá por suas famílias e pela sociedade, que passa por elas, indiferente, escolhendo vê-las como a parte feia e suja da paisagem urbana.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Viva a vida – Ame e reclame!

Quem me conhece ou segue meu blog sabe que eu não sou de reclamar :). (https://balzaquianos.wordpress.com/about/) Sabe também que, depois de morar por 12 anos em Natal (https://balzaquianos.wordpress.com/a-mundana-comedia/) e 6 meses em Pipa (https://balzaquianos.wordpress.com/viva-a-vida/viva-a-vida-lugares-bonitos/) , eu me mudei para Marília e me apaixonei pela cidade. Mais conhecido ainda é o fato de eu nunca deixar de lado os pequenos defeitos – mesmo estando apaixonada. Eu moro no centro da cidade e a quantidade de alarmes de carros e de lojas que disparam no meio da noite é literalmente assombrosa. Eu sei que esse não é um problema que só acontece aqui. Com um número cada vez maior de roubos e assaltos, as pessoas tentam se proteger de todas as maneiras. O problema é que a maioria dos alarmes daqui não está conectada a nenhuma central de segurança e ninguém aparece para desligá-los. Eles, às vezes, disparam na sexta e só vão ser desligados na segunda. Os donos dos carros também não aparecem para desligar o alarme disparado, que fica uivando a noite toda. Em países mais civilizados eles estariam sendo multados por isso. Nos Estados Unidos existem associações de moradores que denunciam esse problema e, nos casos mais extremos, vingam-se dos proprietários, jogando ovos – ou coisas piores – nas propriedades ou nos carros. Alguém se lembra de uma cena do filme Quando um homem ama uma mulher na qual a personagem da Meg Ryan joga ovos no carro que ficava com o alarme disparado na frente da casa dela? Para mim foi e sempre será uma cena memorável. Eu gostaria de ter ovos e coragem suficientes para sair durante a noite premiando aquele que se esquece que o seu direito acaba onde começa o do outro. Mesmo porque, os ladrões não devem ser tão burros assim, e devem acabar percebendo que o cachorro ladra, mas não morde.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Viva Várias Vidas – Leia!

A semana passada foi uma semana de luto. Uma das pessoas mais influentes da minha vida foi-se, sem que eu jamais tivesse tido a oportunidade de lhe dizer o quanto ela foi importante para mim. Como dirigir-se ao mestre de todos os mestres? Se me atrevo a escrever-lhe agora é porque sei que, tendo seu corpo sido cremado, não há possibilidade de seus ossos se revirarem dentro do caixão por tão tosca homenagem. Seu espírito, ocupado em testar todas as suas teorias metafísicas (num corpo de um gato para poder cravar os dentes numa laranja?), não irá se chocar com o meu mau uso da língua.

viaViva Várias Vidas – Leia!.

Post comemorativo – Muito Obrigada!

Eu comecei a escrever este blog há dois anos. Como todos sabem, o objetivo principal era o de esclarecer os motivos pelos quais eu me tornei uma balzaquiana. Acredito que este objetivo tenha sido alcançado. As minhas expectativas foram, com certeza, superadas. Eu nunca imaginei que tantas pessoas de tantos países, línguas e costumes diferentes leriam e comentariam os textos.  Um leitor assíduo comentou recentemente que as 30 razões sobre as quais eu escrevi não passam de 30 passos a serem seguidos para me conquistar. Sendo assim, se você – ou alguém que você conhece – não bebe, não usa drogas e não fuma; não gosta de brigas e discussões; não espera grandes sacrifícios “em nome do amor”; não é ciumento nem possessivo; gosta de se cuidar física e psicologicamente; usa preservativo e é fiel; sabe programar a sua agenda do celular para avisá-lo sobre datas comemorativas e gosta de comemorá-las; não é acomodado ou preguiçoso; não ronca ou não se importa em dormir em quartos separados; não usa mais a famigerada frase: “Você vem sempre aqui?”; tenta fugir dos estereótipos masculinos e femininos; sabe qual é o significado de TPM e qual é a distância mínima necessária a ser adotada durante este período; não quer ou não está desesperado para ter filhos, ou já os tem e sabe criá-los; se o seu carro e os seus bens não são o que melhor lhe definem e se – depois de tudo – ainda estiver interessado, pode me mandar um e-mail, quem sabe achamos algum dragão por aí para matarmos juntos.

Eu gostaria muito de agradecer os meus leitores e seguidores.  É um prazer escrever para vocês.

Obrigada

Thank you

شكرا!

Mulțumesc

Danke

Grazie

धन्यवाद

Tak

Gracias

Merci

Takk

Teşekkür ederim

תודה

آپ کا شکریہ

Terima kasih

Děkuji

তোমাকে ধন্যবাদ

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Obrigada Stefano Paterna pelas fotos!

Val15

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A Mundana Comédia

Eu escrevi este post em 2009. Eu estava muito desapontada com a administração de Natal e queria voltar para São Paulo. Acabei ficando por aqui por causa dos meus alunos e por questões financeiras. No final do ano passado fui morar em Pipa e agora vou voltar para São Paulo. Eu gostaria muito de poder dizer que a situação abaixo mudou, e que Natal voltou a ser uma cidade muito bonita, limpa e segura. Porém, se houve alguma mudança, foi para pior. Eu espero poder voltar aqui dentro de alguns anos e reencontrar aquela cidade pela qual eu me apaixonei. Para que isto aconteça, as pessoas precisam também fazer a sua parte. Não basta cobrar limpeza da Prefeitura e continuar jogando lixo na rua. Não basta reclamar do trânsito e ser o primeiro a não respeitar uma faixa de pedestre; dirigir embriagado; parar em fila dupla; etc. Não basta reclamar que os turistas que consumiam sumiram e fingir que o turismo sexual não existe. O poder público tem uma grande parcela de culpa, mas a recuperação da cidade depende de uma mudança na atitude de todos os seus moradores, inclusive daqueles de fora.

viaA Mundana Comédia.