Meu segundo amor

Há 9 anos eu conheci meu segundo amor. Do primeiro eu havia escapado corajosamente, ao vislumbrar uma vida minada por crises de ciúmes. Ao fugir do primeiro, ao escolher a razão sobre a emoção, ao sofrer demasiadamente para me manter afastada, eu achava que havia perdido a capacidade de me apaixonar perdidamente por alguém novamente. Mas, fui surpreendida, ao ser invadida por sentimentos tão fortes, tantos anos depois. Aquela sensação de que todo o resto é supérfluo. Aquela certeza de que tudo o que você fez na sua vida, o fez para estar ali, junto daquela pessoa. De que não existe outro lugar tão perfeito para recostar a sua cabeça além daquele ombro ao seu lado. Aquela falta de ar, ao perder de vista o objeto do seu amor. Aquela sensação de estar finalmente em casa, de poder dormir em paz, um sono com sonhos bons. E, tal como o primeiro, o meu segundo amor também foi correspondido. O ciúme, porém, ficou fora de cena. Mas, o fato de termos vidas distintas em lugares diferentes nos causou sofrimento, à medida que víamos que o dia de nos separarmos chegava cada vez mais próximo. Achávamos que éramos as pessoas certas, na hora errada. Nos separamos de corações quebrados. E aquele foi um ano de idas e vindas. De discussões sobre ficarmos ou partirmos juntos. Em todas elas, chegávamos à mesma conclusão: o sacrifício seria grande demais. Mais uma vez eu deixei a razão vencer a emoção. Todos, inclusive a minha mãe, achavam que eu deveria partir com ele. Viver o meu grande amor. Mas eu não acredito em sacrifícios em nome do amor. Eu fiquei. De coração quebrado, mas fiquei. Ele foi. De coração quebrado, mas foi. Mas, ele voltou mais algumas vezes. Todas as vezes que ele volta, eu rezo para que eu me sinta diferente em relação a ele. Mas, não importa quanto tempo nós fiquemos afastados, quando nos encontramos é como se o tempo houvesse parado. Nada de estranho, tudo se encaixa naturalmente. É como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Já nem falamos mais em ficar ou ir. Temos nossas vidas, em países diferentes, com culturas diferentes. Por um acaso, nos encontramos no meio do caminho, um caminho que não é o meu, nem é o dele. Covardes, não colocamos nosso amor à prova. Quem sabe se sobreviveria? O problema é que acabamos nos acomodando, temos um ao outro, mas vivemos a maior parte do tempo sozinhos. Nos amamos, mas não estamos juntos nem nos momentos bons, nem nos ruins. E, talvez, depois de 9 anos, seria inteligente pensar que não somos as pessoas certas, na hora errada. Depois de 78840 horas, seria prudente pensar que, talvez, sejamos as pessoas erradas, na hora errada, no lugar errado. Mas, desde de quando o amor é inteligente e prudente? O meu, infelizmente, o é. Talvez seja a hora de conhecer o meu terceiro amor. Um amor sem ciúmes, que esteja no lugar certo e na hora certa. Talvez, eu esteja pedindo demais. Mas, nunca se sabe. Talvez seja como dizem em inglês: “The third time’s the charm”.

Stefano Paterna Venedig-18

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Alex

Antes mesmo de aprender a usá-las corretamente, Alex descobriu o imenso valor das pernas. Ainda bebê, sentado no chão de terra batida do casebre no qual nasceu, descobriu que, se as esticasse e encolhesse rapidamente, conseguia sair do lugar e, consequentemente, fora do caminho do seu pai. Assim que ouvia o portão rangendo, as pernas do pequenino se contraíam e esticavam até que ele estivesse a salvo debaixo da mesa, do armário ou da cama. Essa habilidade aracnídea livrou-o dos pontapés e chutes disferidos pelo seu genitor, que tinham como alvo tudo e todos que ousassem cruzar o seu caminho tortuoso entre a porta e o sofá. Alex já havia cansado de ser bola chutada a escanteio, dor tão doída que o deixava mudo, sem lágrimas, gemendo baixinho no canto mesmo onde caía que, ao descobrir o caminho da salvação, havia nascido de novo. Portão rangendo, pernas de aranha, o mundo seguro e sem dor visto por debaixo dos poucos móveis. E assim, como por um milagre, Alex vingou. O primeiro filho do casal que sobreviveu aos pais. Logo suas pernas finas se firmaram e o menininho começou a andar e a porta da sua casa abriu-se para o mundo. Durante o dia corria no quintal atrás das galinhas e do cachorro sarnento, durante a noite embolavam-se menino e cachorro embaixo de qualquer coisa que lhes desse abrigo e não os deixasse à vista do pai. A mãe, coitada, era grande demais para caber embaixo das coisas e, religiosamente, recebia os chutes e socos do marido, cuspindo um dente aqui e outro acolá, a carne mais sovada do que pão, ossos meio tortos. Mas, valente, sempre se levantava no dia seguinte e, se não tinham muito o que comer, sobreviviam com o que Deus dava. Um bocadinho de café e cuscuz. Das galinhas magras era aproveitado até o sangue, que tinha um gosto esquisito, mas que, segundo a mãe, era muito bom para crescer.

Um dia o pai chegou de mansinho e, pegando Alex distraído, resolveu dar-lhe todos os pontapés e chutes guardados desde a última vez que tinha conseguido acertar o menino. A mãe geralmente não se metia com o marido, mas viu que, se não interferisse, ele acabaria aleijando o filho. A fúria do homem então se voltou toda contra ela. Alex assistiu através da frestinha do olho inchado de tanta pancada que ainda conseguia abrir, o pai matando a mãe.

No orfanato Alex foi feliz. Podia jogar bola com os outros meninos, correndo o campo todo, rápido como o vento. Tinha uma cama quentinha e comida todos os dias. Até o dia que seu tio veio buscá-lo, ele viveu como num sonho. Acordou dentro de um pesadelo. O tio tinha o mesmo gênio do pai e, depois da terceira surra, as pernas de Alex o levaram para longe dali, rumo à capital. Ao ver a praia pela primeira vez, o menino pensou que tinha morrido e chegado ao paraíso. Suas pernas não se cansavam de correr pela areia, seus pés encharcados de água até os tornozelos.

Flanelinha, Alex, rápido e simpático, conseguia dinheiro suficiente para comer todos os dias. Dormir enrolado embaixo de alguma marquise não era tão diferente do que dormir embaixo dos móveis familiares. Não tivesse conhecido o orfanato, poderia dizer que era feliz.

Mas, como tem gente ruim em casa, na rua também tem. Alex passou a ser alvo dos outros moleques maiores. Eles ficavam o dia inteiro sem trabalhar e depois se juntavam para tirar o dinheiro do menino. Ele, sendo mais rápido, conseguia fugir algumas vezes. Mas, quando apanhado, sentia na carne a vingança dos outros.

Foram eles que deram crack para o Alex provar. Ao inalar a fumaça, Alex sentiu que suas pernas ficaram tão leves, tão leves que criaram asas. As asas de Alex o levaram para longe, muito longe, para um mundo que ele não sabia que podia existir, para uma felicidade que parecia infinita.

Alex nunca mais quis deixar que seus pés pousassem por muito tempo no chão. Trabalhava dia e noite olhando carros para conseguir o dinheiro da droga, e, quanto mais alto voava, mais alto queria voar. Mas até mesmo pernas voadoras têm que comer. O dinheiro escasso não dava para as duas coisas. Mendigar um prato de comida pela primeira vez doeu tanto quanto uma surra das bem dadas. Mas, aquelas pernas se adaptavam a tudo e, ao invés de correrem incansáveis de um lado para outro o dia inteiro, cruzaram-se sentadas num chão de uma esquina, as pupilas dilatadas, o coração acelerado, a boca seca e as mãos em súplica.

As brigas por causa da droga, os pequenos furtos atraíram a polícia, que passou por lá deixando sua marca nos corpos daqueles farrapos humanos. Agora Alex jaz deitado no chão da esquina, encolhido num canto, tão magro e queimado de sol que sua pele parece enrugada, sua boca quase em dentes e seu olhar apagado nos lembram o de um ancião. Ele se sente cansado, um velho de 15 anos. Não que ele saiba sua própria idade. Pessoas como ele não têm idade. Elas têm anos de sofrimento. Sofrem surras, injúrias, fome, sede, cansaço, frio, humilhações e indiferença. Sofrem até o dia em que Deus sente piedade delas e as levam daqui para um mundo melhor, sem sofrimento. Ao chegar neste mundo, as pernas de Alex voltam a criar asas e lá vai ele correndo, voando, jogando bola nos gramados verdejantes infinitos, abrindo um sorriso cheio de dentes branquinhos, inteiros.

 Não tem nada que me deixe mais triste do que ver pessoas abandonadas nas ruas. O termo morador de rua é uma ironia. Ninguém mora na rua. Ninguém escolhe conscientemente ir para a rua. A rua não é uma opção. As pessoas são abandonadas lá por suas famílias e pela sociedade, que passa por elas, indiferente, escolhendo vê-las como a parte feia e suja da paisagem urbana.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Pânico de ter síndrome do pânico

Há alguns meses, eu criei a “consciência” de que eu tinha um coração. Antes, eu sabia que ele existia, mas nunca tinha prestado tanta atenção aos seus batimentos. Comecei a acordar de noite sentindo o coração bater forte. O mesmo ocorria durante o dia.

Além da taquicardia, eu comecei a ter fortes dores no peito e fui parar no pronto-socorro.

O médico que me atendeu foi muito atencioso e, depois de realizar alguns testes, sugeriu que eu procurasse um cardiologista para checar os episódios de taquicardia, mas que achava que não era nada preocupante. Me perguntou se eu tinha refluxo e, ao ouvir minha resposta positiva, me sugeriu também procurar um gastroenterologista para verificar a dor no peito, que poderia ser causada por algum problema estomacal. A sua terceira sugestão foi para gerenciar o stress, pois tudo o que eu estava sentindo poderia ser gerado por stress, ansiedade e até mesmo pânico.

Resolvi seguir os seus conselhos e consultei um cardiologista que, depois de alguns exames, viu que eu realmente tinha alguns episódios de taquicardia, mas que não tinham relação com algum problema físico e sim com stress.

Ele me receitou um remedinho para “dar uma desacelerada” no coração.

Ao mesmo tempo consultei uma psiquiatra, que, depois de eu contar o que tinha ocorrido, me fez exatamente 5 perguntas e obteve as seguintes respostas:

1) Você chora com muita frequência sem motivo?

Não. Mas choro fácil assistindo filmes ou lendo livros que me emocionam.

2) Como estão as coisas no trabalho?

Estão ótimas. Gosto bastante dos meus alunos e das aulas que estou dando no momento.

3) Como você lida com a depressão e a síndrome de pânico da sua mãe?

Está cada vez mais difícil. Eu não sei mais o que fazer e sinto que a situação está me deixando doente. Fico preocupada, pois sei que ela conta comigo, mas não tenho mais forças para lutar contra uma coisa que ela mesma não quer lutar. As crises de choro e as ameaças de suicídio estão literalmente me matando.

4) Você é casada?

Não.

5) Tem filhos?

Não.

Diagnóstico: “Você nem precisa passar no gastroenterologista. Você não tem nada físico. Você teve um ataque de pânico e está começando uma depressão. Vai tomar um antidepressivo que tem sido bem aceito e voltar daqui a um mês.”

Saí de lá com o antidepressivo, entrei em um fórum de usuários e saí dele rezando para nunca precisar usar aquela droga.

Não tomei o antidepressivo e fui ao Gastro, que, depois de uma endoscopia, descobriu que eu estava com uma esofagite de refluxo, além de gastrite. Ele me disse que a dor que eu tive e estava tendo era da esofagite e me deu um tratamento.

Eu já estava tomando o remedinho dado pelo cardiologista, que tinha realmente dado uma “desacelerada” no coração.

Comecei então a sentir tontura e minhas mãos ficavam geladas. Como minha mãe tem síndrome do pânico, sei que estes são alguns dos sintomas. Eu estava decidida a não deixar que eles tomassem conta de mim e andei uma semana inteira pela cidade trabalhando e passando mal. Até que um dia, passando por um local onde estavam tirando a pressão, resolvi checar a minha, que estava muito baixa.

Fiquei aliviada, pois minha tontura e minhas mãos geladas não eram pânico.

Liguei imediatamente para minha médica favorita (minha prima) que me disse que o remedinho que eu estava tomando abaixava a pressão. Me disse para tomar só metade da dose e ligar para o cardiologista. Ele recomendou então que eu ficasse só com metade da dose. Depois de uma semana eu comecei a me sentir um pouco melhor, mas minha pressão voltou a cair. Prima (parar o remédio e ligar para o cardiologista), cardiologista (parar o remédio e tomar um calmante natural). O cardiologista foi extremamente atencioso, me ligou vários dias para me passar as orientações e conversou comigo (tanto na consulta, quanto por telefone) muito mais tempo que a psiquiatra. Resolvi então, confiar nele e comecei a tomar o calmante natural.

Até então, já tinham se passado 2 meses e, embora eu já tivesse fazendo o tratamento para esofagite há um mês, a melhora tinha sido bem pequena. Como eu só estava fazendo o tratamento com medicamentos, resolvi adotar uma técnica que eu aprendi há muitos anos quando tive problemas crônicos de gastrite. Comecei a cortar tudo o que eu sentia que me fazia mal. Quem me conhece, sabe que eu já não como diversas coisas. Pois é, agora a lista cresceu um pouco. 🙂

Além de mudar a alimentação, mudei hábitos: deixei de dormir depois do almoço 😦, não como nada depois das 6 horas e levantei a cabeceira da cama.

Comecei então, a melhorar. Ainda tenho alguns episódios de dor, mas bem pequenos. Comecei a introduzir algumas coisas que eu tinha cortado da minha dieta. Mas estes dois meses me abalaram muito. O pânico de ter síndrome de pânico me deixou, literalmente, em pânico.

Eu sei que nenhum de nós está acima destes desequilíbrios químicos e só eu sei o que minha mãe tem passado com esta doença.

Espero, sinceramente, que eu consiga superar tudo sem a ajuda química. Pois, sei também o que um remedinho pode causar. Começamos com um e quando vemos estamos com dez.

Mas todo este episódio foi uma lição de humildade. Na correria do dia-a-dia, nos esquecemos de prestar atenção aqueles que mais precisam.

Era o que eu estava fazendo com a minha mãe. Eu estava suprindo as suas necessidades físicas, mas tinha desistido de tentar suprir as emocionais.

Eu deixei meu instinto de sobrevivência falar mais alto que o meu filial. Mas me esqueci de que sobreviver não é viver.

Ainda não tenho a menor ideia de como ajudá-la, mas eu tenho a certeza de que eu realmente preciso tentar mais.

Eu sei que o que ela passa é 100 vezes mais forte do que eu passei. Eu não sei como ela aguenta, uma vez que a sensação é horrível.

Nós não podemos nunca nos esquecer de nos colocarmos no lugar do outro. Pois, se não o fizermos, a vida nos colocará.

Agradeço a Deus pela oportunidade e peço forças para ajudar a quem mais precisa. O caminho ainda é longo e eu não sei como começar, mas ele está aberto para aqueles que tiverem a coragem de o trilhar. Eu estou disposta a tentar, o desafio é o de convencê-la a tentar também.

Fotoreise Sambia Malawi Stefano Paterna_10

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Source: Pânico de ter síndrome do pânico

Eu sobrevivi à minha mãe

Eu nunca quis ser mãe, não sou mãe e nunca serei mãe. Meu relógio biológico nasceu quebrado e nunca soou.

Os motivos são vários, mas acredito que a falta de coragem para arcar com esta responsabilidade foi decisiva.

Eu nunca me senti preparada para assumir tal papel. Eu nunca quis repetir a minha história.

Eu cresci vendo minha mãe sofrer, enlouquecendo a cada passo nosso. Fazendo o seu melhor e nos dando o seu pior. E eu sei que é fácil criticar, e que ela fez tudo para ser uma boa mãe. Mas, pelo menos para mim, ela sempre foi uma nuvem sombria pairando sobre a minha cabeça. Na vã tentativa de me proteger de tudo e todos, ela me fez acreditar – por um bom tempo – que eu não era capaz de fazer nada direito. Tudo o que eu queria era muito difícil, levava muito tempo e alguém tinha morrido frustrado tentando fazer.

Assim, desde pequena, eu fui desistindo de uma coisa atrás da outra.

Pode até ser que eu realmente não tivesse nascido para fazer aquelas coisas, e que a minha falta de aptidão fosse real, mas eu nunca vou saber de verdade, pois eu desisti antes mesmo de realmente tentar. Cada tentativa era – e ainda é – seguida de uma crítica virulenta. Eu nunca, nunquinha mesmo, recebi um elogio da minha mãe que não fosse imediatamente seguido de um grande MAS….

Uma das primeiras coisas que ela me fez desistir foi das artes plásticas. Com medo de que eu tentasse seguir o exemplo do meu pai, ela não nunca poupou críticas e quando alguém dizia que eu tinha jeito para coisa ela mostrava todos os defeitos aparentes nas minhas telas infantis. Depois foi o balé: eu era desajeitada e não nunca conseguiria ser graciosa; o canto e o violão: desafinada!

Ela só não conseguiu fazer com que eu desistisse das aulas de Inglês. Foi uma briga de mais de um mês, pois ela não queria que eu fosse sozinha até a escola. Eu venci esta briga. Ainda bem, pois hoje eu sou professora deste idioma.

Eu consegui ser professora de Inglês em escolas de idiomas apesar dela. Eu nunca tinha pensado em ser professora e quando eu fui convidada pela coordenadora da escola para tentar, ela foi contra.

Aliás, todas as vezes que eu arrumo um novo emprego e começo algo, ela me deseja boa sorte: “Boa sorte, você vai precisar! Você vai ver como é difícil! Não vão te pagar direito, etc.”

Eu sei que esta é a maneira torta que ela tem para me proteger. Ela prefere me desiludir logo de cara, assim eu não vou sofrer. Ela acha que se a crítica vier dela, minha decepção será menor.

Ela conseguiu me prender neste círculo infernal durante toda a minha infância. Eu passei anos me achando feia, barriguda, desajeitada. Ela me fazia acreditar que todos estavam nos julgando o tempo todo e que éramos preteridos. Minha avó preferia as outras tias, e consequentemente, os outros netos. Ela se sentia preterida e, ao invés de nos proteger deste sentimento, ela fazia questão de nos contaminar.

Na minha adolescência, graças às famílias das minhas amigas, eu passei a ver o mundo através das nuvens pretas. Eu vi um mundo bonito, e, melhor ainda, eu vi que eu poderia ter um lugar nele. Esta foi a minha fase “diabólica”. É assim que minha mãe denomina a fase que eu passei a viver, apesar dela.

Eu sei que tudo o que ela fez é inconsciente, e que se é duro viver com uma nuvem negra pairando sobre a sua cabeça. Mil vezes mais duro deve ser, ser a nuvem.

A nuvem dela está cada vez mais negra, e tomou conta completamente dela. Ela não tem forças para lutar contra a escuridão.

Está cada vez mais difícil também, brilhar apesar dela. Eu luto todos os dias para não deixar que ela me ofusque, e que toda a negatividade, maldade e desânimo não me contamine. Eu estou cada vez mais cansada de lutar contra a tempestade.

Eu sobrevivi à minha mãe, ao seu senso crítico, à sua insatisfação crônica, ao seu dever de me informar quão desajeitada eu era – eu sou – para a vida.

Mas está cada vez mais difícil sobreviver à sua depressão e falta de vontade de viver.

A luta diária para achar compaixão por alguém que tão pouco me mostrou este lado é árdua. Ter dó de quem não tem dó de ninguém, é cansativo. Ignorar os comentários maldosos, recalcados e repletos de ressentimento é uma luta diária. Não ressenti-los, é uma batalha homérica.

Até agora eu consegui ver através das nuvens, me afastar da tempestade e sobrevivi aos raios e trovões. Mas eu sinto, cada vez mais forte, a ameaça. Eu sou uma sobrevivente, e espero que meu instinto de sobrevivência seja maior que o meu filial. E para tanto, eu rezo todos os dias: para manter a escuridão longe de mim!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Monólogo da loucura

Acordei!

Será que dormi?

Que horas são?

Não vou olhar no relógio.

Se não dormi, vou ficar nervosa e não durmo mais.

Tomo mais um quartinho do remédio?

Mas, se eu dormi?

Aí não preciso tomar o remédio.

Olho a hora ou não?

Não, só vou descansar!

Acho que eu não dormi.

Estou tão cansada!

Como gostaria de dormir uma noite inteira!

Ah, o sino…. Uma, duas, três? Duas ou três horas da manhã?

Agora vou olhar. Duas!

Bem que poderiam ser três.

Dormir! Dormir para sempre!

Deus poderia ter dó de mim!

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Três?

Vou tomar mais um quartinho do remédio.

Ah! Se eu tivesse coragem!

Tomaria tudo e acabaria com esta agonia.

Dormir até a Eternidade!

Do que vale a vida?

Eu não tenho ninguém.

Eu não vou fazer falta para ninguém.

Ninguém liga para mim.

Até mesmo meus gatos estão melhor sem mim.

A vida não vale a pena.

A minha vida não vale a pena.

O que será que eu fiz para merecer isto?

Eu estou sendo castigada e não sei o motivo.

Dormir, eu preciso dormir….

Ai, que sede!

Se eu levantar para beber água, eu perco o sono.

Vou esquecer.

Não dá, vou beber água.

Vou tomar também o remédio.

Ah! O sono está vindo….

Ai, que vontade de fazer xixi!

Vou segurar, estou quase dormindo…

Não dá.

Perdi o sono.

Tomo mais remédio?

Não dá. Vou ter que dormir sem ele.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Quatro? Quatro ou cinco?

Este vento nunca me deixa ouvir as badaladas.

Este vento uivando é amaldiçoado.

Desde a minha adolescência, eu odeio este vento.

Eu odeio esta cidade.

Não sei o motivo pelo qual eu voltei.

Será que voltei para morrer?

Se for, se não morrer logo, me mato!

Ah! E a falta de coragem!

Agora estou como fome.

Vou tomar um chazinho de camomila e comer umas torradinhas para ver se me acalmo.

Cinco! Logo, logo é dia.

Se clarear, não durmo mais.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Talvez, se eu dormisse pelo menos um dia….

Seis!

Agora não durmo mais.

Nem com remédio.

Cheiro de pão torrado e café.

Que enjoo!

Barulho….

O inferno começou.

Lá vem uma moto.

Tomara que se estatele num poste!

Inferno! Inferno! Inferno!

Eu sou uma Rapunzel caquética morrendo aos poucos nesta torre de concreto!

Se jogar minha trança, ninguém virá me socorrer.

Será que está sol?

O sol me ofusca!

Minha enxaqueca me mata!

Antes me matasse de verdade!

Fechar tudo.

Tenho que fechar tudo.

Não posso ver o sol.

Não posso respirar este ar.

Este ar vai me matar.

A poluição aqui é insuportável.

O cheiro de gás.

O gás está me envenenando aos poucos.

Fazer cirurgia para quê?

Vou morrer envenenada mesmo!

Se eu dormisse e não acordasse….

A roupa com a qual eu vou ser enterrada já está pronta.

Eu estou pronta!

Eu estou pronta?

Eu não estou pronta!

Eu estou ficando louca.

Eu não quero morrer.

Se eu quisesse morrer, não teria medo de fazer a cirurgia.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Val_3

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Muito Obrigada!! Thank you very much!!

Gostaria de agradecer a todos os meus amigos, familiares e leitores pelo incentivo e suporte dados durante o ano que se encerra.

I would like to thank all my friends, family and readers for their kind words and support throughout this year.

A nossa realidade não passa de um mero reflexo dos nossos mais profundos desejos.

Our reality is a mere projection of our deepest wishes.

Stefano Paterna Venedig-17

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Feliz Ano Novo!

Happy New Year!

سنة جديدة سعيدة

La mulţi ani!

Frohes Neues Jahr!

Felice Anno Nuovo!

नया साल मुबारक हो!

¡Feliz Año Nuevo!

Godt Nytår!

Godt Nyttår!

Bonne Année!

Yeni Yılınız Kutlu Olsun!

नया साल मुबारक हो!

শুভ নববর্ষ!

Šťastný Nový Rok!

Srečno novo leto!

Hyvää Uutta Vuotta!

Tau Hou Ka hari!

С Новым Годом!

A vida é um baile de carnaval

Hoje seria o aniversário da minha avó paterna, cuja presença foi sempre marcante na minha vida. A minha avó materna continua firme e forte a caminho dos seus 95 anos.

As duas já foram homenageadas tanto neste blog, quanto no livro. Os textos foram retirados do blog por exigência contratual e quem não os leu aqui, pode encontrá-los no livro que já está à venda na livraria Cultura e no portal da Amazon.

O texto de hoje também fala de uma avó. Desta vez a homenageada é uma avó do coração.

Eu tenho sorte de ter uma família muito grande e unida. Sou, ainda, duplamente sortuda por ter tido a oportunidade de conviver com as famílias dos meus amigos, que – muitas vezes – se tornaram tão importantes quanto a minha.

A convivência com a vó Teresa e com toda a sua família foi um presente que me foi dado num período muito conturbado da minha adolescência. O seu sorriso fácil e a capacidade de rir de tudo – sobretudo de si mesma – iluminavam todos ao seu redor. Ela era daquelas avós que pintavam os cabelos de roxo, quiçá para perpetuar durante o resto do ano a sua festa favorita: o Carnaval. Foi com ela que eu aprendi a gostar de bailes de carnaval. Ela nos ajudava no planejamento das fantasias e nas compras. Tinha mais energia que todos nós e não perdia nenhuma marchinha. Energia, aliás, era seu nome. Qual avó acompanharia os netos ao Play Center para ficar na fila para eles o dia inteiro? Quem mais se preocuparia em fazer os pratos favoritos de todos, inclusive dos visitantes? Assim que me via, sempre me oferecia o meu doce de cidra favorito. Quando fazia capeletti, sempre me convidava para o jantar; dizendo – modesta – que não tinha ficado bom. Como discutir com ela de boca cheia? Existem algumas pessoas que vêm ao mundo para iluminar a vida de todos ao seu redor e este era o seu caso. Ela se foi da mesma forma como viveu. O passarinho de cabecinha roxa bateu asas e voou.

Se algumas teorias espíritas estão corretas, e cada um tem o seu próprio céu, o da vó Teresa é feito de nuvens roxas de algodão doce, rios de anisete, flores de alfazema, chuvas de confete e marchinhas de carnaval. Lá está ela, sentada nos esperando numa mesa grande, de costas para o sol, fazendo os quitutes favoritos de cada um que chega, recebendo-os com o seu eterno sorriso bondoso.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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