Monólogo da loucura 3

Esta sala é muito escura, sem vida, nem parece uma casa.

A manta e as almofadas novas são muito claras, vão sujar e estragar logo.

As lâmpadas são brilhantes demais, não dá nem para abrir os olhos.

Os quadros ficaram altos demais. Não gostei.

Não gostei das fotos nos porta-retratos.

Não aguento esta máquina de lavar roupas, faz muito barulho.

A máquina de lavar nova não faz barulho, mas é grande demais. Meu Deus, que exagero. Por que uma máquina tão grande?

Toda a vez que vou sair do meu quarto, tropeço no pé da cama.

Agora não tropeço mais no pé da cama, mas tenho que dar a volta nela para pegar qualquer coisa na cômoda. Não aguento andar tanto. Estou cansada.

Eu não aguento mais comer sempre a mesma coisa.

A canja está insossa. A caldo de carne está salgado demais. O arroz está duro. O peixe está temperado demais. O frango está seco. O pão está duro demais. O pão está mole demais. O macarrão está sem gosto. O molho está com alho demais. Os legumes estão duros. A mandioquinha cozinhou demais. A banana está madura demais. A banana está verde. O mamão pequeno está com uns carocinhos duros. O mamão Formosa é grande demais, vai estragar. Eu não consigo mastigar. Eu estou enjoada. O chocolate faz uma massa na boca e não derrete. O pêssego está duro demais.

Preciso tomar vitaminas, estou fraca demais.

Não consigo engolir os comprimidos.

Não consigo tomar a vitamina em pó, é muito ruim.

O antidepressivo está me deixando muito ansiosa e não me deixa descansar.

O calmante está me deixando muito mole e eu não consigo me levantar.

O chuveiro está muito quente.

O chuveiro está frio demais.

Preciso ter alguém para me ajudar.

Não aguento esperar pela moça que vem ajudar. Peça para ela não vir.

Estou como fome.

Não tem nada para comer. Já enjoei de tudo o que tem.

Quero me distrair para ver se fico um pouco menos ansiosa.

Não quero nem ver, nem ler jornal. É só desgraça. Não quero ver novela ou ver revistas, é muito fora da realidade. Não quero ver séries, pois não aguento ler as legendas. Não quero ler. Não consigo me concentrar. Pintar está me deixando nervosa. Não quero dar uma volta. Não quero sair de casa. Eu não aguento mais de ansiedade.

Estou com dor no corpo inteiro.

Não quero tomar remédio para dor. Não quero ir ao médico. Não quero fazer fisioterapia.

Meu colchão é duro demais.

Meu colchão novo é mole demais.

Meu outro colchão é duro demais.

O “pillow top” é torto.

Quero dormir.

Só consigo dormir tomando remédio. Estou tomando os remédios errados. Eu não preciso destes remédios. Eu estou cansada. Eu não consigo engolir os comprimidos. Eu não quero. Eu não posso. Eu estou cansada. Eu estou cansada. Eu estou cansada.

Stefano_Paterna_Valeria-6 (1)

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menininha

Era uma vez uma linda menininha. Uma princesinha loira e branquinha, tão encantadora que todos se apaixonavam assim que a viam. Tanta beleza atraiu logo os olhos invejosos da Maldade, que tentou ferir a menininha, lançando no seu corpo e na sua alma agulhas de despeito. Felizmente, as agulhas não atingiram o alvo e deixaram apenas algumas cicatrizes no corpo, pois a sua alma, tal como a de sua mãe, era daquele tipo que esquece e perdoa seus algozes.

Mas, a menininha, tendo batido a Maldade, começou a crescer com a ilusão de que tinha superpoderes e testava-os a cada oportunidade. Gatinha equilibrista no muro e na árvore. Pulando das alturas, atingindo o chão. Levitando sobre a pia do banheiro. Deixando o seu anjo da guarda enlouquecido e exausto. Algumas pessoas chegaram até duvidar do anjo, pobre coitado. Pois uma perninha quebrada aqui, uns pontinhos ali, sangue escorrendo dos múltiplos machucadinhos. O que eles não sabiam é que, devido ao grande risco que a menininha sempre corria, os pequenos arranhões que ela sofria, não eram distração do seu anjo, e sim avisos para que ela não se arriscasse tanto, para mostrar-lhe que ela tinha limites humanos, apesar dos seus superpoderes.

Tantas idas e vindas do hospital e do pronto socorro fizeram com que ela se interessasse por aqueles homens e mulheres que estavam sempre prontos para ajudá-la a colocar no lugar o que quer que seja que ela tivesse tirado fora. Sendo assim a menininha decidiu se tornar uma consertadora de gente. Escolheu consertar anjinhos que nascem de asa quebrada, pois se lembrou que em tão tenra idade a Maldade tentou também lhe ferir, e ela a venceu. Hoje em dia, luta contra a Maldade e a Fatalidade, tentando livrar os anjinhos das suas garras sujas. Muitas vezes vencendo, algumas perdendo, mas nunca perdendo a Esperança e a Alegria, suas companheiras de vida.

Rio_Stefano_Paterna_6

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Imaginação

“Logic will get you from A to Z; imagination will get you everywhere.”
Albert Einstein

Albert Einstein disse que a lógica pode nos levar de A até Z e que a imaginação nos leva a todos os lugares.

E o que podemos fazer quando a imaginação substitui completamente a lógica e os lugares a que somos levados são todos sombrios?

O que fazer quando a imaginação deixa de sonhar e só nos traz pesadelos?

Qual é a lógica por trás do funcionamento de um cérebro que não está querendo mais funcionar?

Onde está a tomada? Onde desligamos a corrente? Quando poderemos ligá-la novamente?

Quem escolhe o caminho: a lógica ou a imaginação?

Será a realidade tão dura, que a imaginação decide logicamente deixar de seguir a lógica real?

Será a lógica tão dura, que nem a imaginação consegue fugir da realidade?

Por que criar uma realidade imaginária pior do que a realidade?

É, realmente, a lógica não nos levará a lugar nenhum. Só nos resta imaginar como alguém sofre ao trocar a realidade por pesadelos constantes e aterradores e rezar para que a nossa imaginação continue nos levando para mundos melhores – agora e sempre!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Pânico de ter síndrome do pânico

Há alguns meses, eu criei a “consciência” de que eu tinha um coração. Antes, eu sabia que ele existia, mas nunca tinha prestado tanta atenção aos seus batimentos. Comecei a acordar de noite sentindo o coração bater forte. O mesmo ocorria durante o dia.

Além da taquicardia, eu comecei a ter fortes dores no peito e fui parar no pronto-socorro.

O médico que me atendeu foi muito atencioso e, depois de realizar alguns testes, sugeriu que eu procurasse um cardiologista para checar os episódios de taquicardia, mas que achava que não era nada preocupante. Me perguntou se eu tinha refluxo e, ao ouvir minha resposta positiva, me sugeriu também procurar um gastroenterologista para verificar a dor no peito, que poderia ser causada por algum problema estomacal. A sua terceira sugestão foi para gerenciar o stress, pois tudo o que eu estava sentindo poderia ser gerado por stress, ansiedade e até mesmo pânico.

Resolvi seguir os seus conselhos e consultei um cardiologista que, depois de alguns exames, viu que eu realmente tinha alguns episódios de taquicardia, mas que não tinham relação com algum problema físico e sim com stress.

Ele me receitou um remedinho para “dar uma desacelerada” no coração.

Ao mesmo tempo consultei uma psiquiatra, que, depois de eu contar o que tinha ocorrido, me fez exatamente 5 perguntas e obteve as seguintes respostas:

1) Você chora com muita frequência sem motivo?

Não. Mas choro fácil assistindo filmes ou lendo livros que me emocionam.

2) Como estão as coisas no trabalho?

Estão ótimas. Gosto bastante dos meus alunos e das aulas que estou dando no momento.

3) Como você lida com a depressão e a síndrome de pânico da sua mãe?

Está cada vez mais difícil. Eu não sei mais o que fazer e sinto que a situação está me deixando doente. Fico preocupada, pois sei que ela conta comigo, mas não tenho mais forças para lutar contra uma coisa que ela mesma não quer lutar. As crises de choro e as ameaças de suicídio estão literalmente me matando.

4) Você é casada?

Não.

5) Tem filhos?

Não.

Diagnóstico: “Você nem precisa passar no gastroenterologista. Você não tem nada físico. Você teve um ataque de pânico e está começando uma depressão. Vai tomar um antidepressivo que tem sido bem aceito e voltar daqui a um mês.”

Saí de lá com o antidepressivo, entrei em um fórum de usuários e saí dele rezando para nunca precisar usar aquela droga.

Não tomei o antidepressivo e fui ao Gastro, que, depois de uma endoscopia, descobriu que eu estava com uma esofagite de refluxo, além de gastrite. Ele me disse que a dor que eu tive e estava tendo era da esofagite e me deu um tratamento.

Eu já estava tomando o remedinho dado pelo cardiologista, que tinha realmente dado uma “desacelerada” no coração.

Comecei então a sentir tontura e minhas mãos ficavam geladas. Como minha mãe tem síndrome do pânico, sei que estes são alguns dos sintomas. Eu estava decidida a não deixar que eles tomassem conta de mim e andei uma semana inteira pela cidade trabalhando e passando mal. Até que um dia, passando por um local onde estavam tirando a pressão, resolvi checar a minha, que estava muito baixa.

Fiquei aliviada, pois minha tontura e minhas mãos geladas não eram pânico.

Liguei imediatamente para minha médica favorita (minha prima) que me disse que o remedinho que eu estava tomando abaixava a pressão. Me disse para tomar só metade da dose e ligar para o cardiologista. Ele recomendou então que eu ficasse só com metade da dose. Depois de uma semana eu comecei a me sentir um pouco melhor, mas minha pressão voltou a cair. Prima (parar o remédio e ligar para o cardiologista), cardiologista (parar o remédio e tomar um calmante natural). O cardiologista foi extremamente atencioso, me ligou vários dias para me passar as orientações e conversou comigo (tanto na consulta, quanto por telefone) muito mais tempo que a psiquiatra. Resolvi então, confiar nele e comecei a tomar o calmante natural.

Até então, já tinham se passado 2 meses e, embora eu já tivesse fazendo o tratamento para esofagite há um mês, a melhora tinha sido bem pequena. Como eu só estava fazendo o tratamento com medicamentos, resolvi adotar uma técnica que eu aprendi há muitos anos quando tive problemas crônicos de gastrite. Comecei a cortar tudo o que eu sentia que me fazia mal. Quem me conhece, sabe que eu já não como diversas coisas. Pois é, agora a lista cresceu um pouco. 🙂

Além de mudar a alimentação, mudei hábitos: deixei de dormir depois do almoço 😦, não como nada depois das 6 horas e levantei a cabeceira da cama.

Comecei então, a melhorar. Ainda tenho alguns episódios de dor, mas bem pequenos. Comecei a introduzir algumas coisas que eu tinha cortado da minha dieta. Mas estes dois meses me abalaram muito. O pânico de ter síndrome de pânico me deixou, literalmente, em pânico.

Eu sei que nenhum de nós está acima destes desequilíbrios químicos e só eu sei o que minha mãe tem passado com esta doença.

Espero, sinceramente, que eu consiga superar tudo sem a ajuda química. Pois, sei também o que um remedinho pode causar. Começamos com um e quando vemos estamos com dez.

Mas todo este episódio foi uma lição de humildade. Na correria do dia-a-dia, nos esquecemos de prestar atenção aqueles que mais precisam.

Era o que eu estava fazendo com a minha mãe. Eu estava suprindo as suas necessidades físicas, mas tinha desistido de tentar suprir as emocionais.

Eu deixei meu instinto de sobrevivência falar mais alto que o meu filial. Mas me esqueci de que sobreviver não é viver.

Ainda não tenho a menor ideia de como ajudá-la, mas eu tenho a certeza de que eu realmente preciso tentar mais.

Eu sei que o que ela passa é 100 vezes mais forte do que eu passei. Eu não sei como ela aguenta, uma vez que a sensação é horrível.

Nós não podemos nunca nos esquecer de nos colocarmos no lugar do outro. Pois, se não o fizermos, a vida nos colocará.

Agradeço a Deus pela oportunidade e peço forças para ajudar a quem mais precisa. O caminho ainda é longo e eu não sei como começar, mas ele está aberto para aqueles que tiverem a coragem de o trilhar. Eu estou disposta a tentar, o desafio é o de convencê-la a tentar também.

Fotoreise Sambia Malawi Stefano Paterna_10

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Source: Pânico de ter síndrome do pânico

Bem-vindos à segunda metade da minha vida

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que alguém me chamou de senhora. Foi numa biblioteca do SESC e, se não fosse pela polêmica causada, eu acho que o fato teria passado em branco. Um dos atendentes me chamou de “senhora” e o outro, indignado, lhe disse que eu, obviamente, não era uma “senhora”. Imagina chamar esta mocinha de “senhora”. O coitado quis se explicar e disse que não havia me chamado de “senhora” por me achar velha e sim por respeito. O outro, que queria mesmo pegar no pé dele, replicou que então ele deveria ter me chamado de “senhorita”. O primeiro, querendo agora se defender, lhe explicou que senhora era usado para mulheres casadas e senhorita para solteiras. Como ele não sabia se eu era casada ou solteira, tinha optado por “senhora”. Tal observação foi seguida da óbvia pergunta sobre meu estado civil. A declaração da minha solteirice e minha falta de vontade de continuar a polêmica deram a vitória ao segundo atendente, que passou imediatamente a me chamar de você e, se eu lhe desse um pouquinho mais de atenção, teria pedido meu telefone.

Eu tinha então 28 anos e até mais ou menos meus 35, as pessoas não me chamavam de senhora. Desde de então, um “senhora” aqui e outro acolá, até que – não sei quando! – o “senhora” passou a ser a regra. Principalmente partindo de mulheres. Elas são sempre mais implacáveis com os sinais do tempo que marcam as outras.

Recentemente, um caso inverso aconteceu. Uma aluna me chamou de você. A outra, indignada, lhe disse para ter mais respeito e lhe perguntou se ela chamava os pais dela de você. A confusão foi então armada. Uns dizendo que eu tinha idade para ser “você” e outros dizendo que “senhora” era só por uma questão de respeito, pois era óbvio que eu não tinha a idade dos pais dela. Tive que resolver a questão perguntando a idade dos pais. E, realmente, eu não tinha a mesma idade deles. Eu era 10 anos mais velha! Ao ouvirem minha idade todos protestaram e ninguém acreditou. Eles achavam que eu era muito mais nova.

A grande maioria das pessoas fica surpresa quando digo minha idade, mas o “senhora” já é uma realidade cotidiana e, se eu tiver a mesma sorte das minhas avós, pode-se dizer que eu sou uma senhora de meia-idade. Os meus 47 anos podem ser o marco da metade da minha vida.

Muitas pessoas ficariam deprimidas com esta conclusão, mas eu faço parte do grupo da “metade cheia”. Sendo assim, bem-vindos à segunda metade da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos os que estiveram nela até o momento – seja com mais ou seja com menos frequência. Foi um prazer tê-los comigo e será um prazer imenso ter o privilégio de contar com vocês na segunda metade que se inicia. Que venham novos amigos, novos amores, novos desafios e novas experiências. Que as decepções sejam impulsos para novas conquistas. Que eu tenha coragem para fazer aquilo que eu nunca tive. Que um mundo de novos horizontes se abra e que eu aceite as mudanças de forma sábia (como convém a uma senhora de meia-idade) e saiba me adaptar às novas circunstâncias.

Que a segunda seja tão boa quanto à primeira!

A Janela

Quem somos nós para questionar os desígnios de Deus?

Ou, melhor: quem somos nós para questionar a sua existência?

Criada na fé católica,

Cresci desacreditando na Instituição,

E desconfiando de um Deus tão dicotômico,

Que ora implacavelmente castiga com uma mão e

E ora misericordiosamente salva com a outra.

Flertei – blasfêmia?- com outras filosofias e religiões,

E, se não encontrei uma resposta plausível para tudo,

Pelo menos encontrei um Deus mais justo:

Que nos dá o livre arbítrio e nos permite fazer escolhas (certas e/ou erradas) o tempo todo.

Mas, não importa qual seja a nossa Religião, Crença ou Filosofia,

Nada nos faz questionar tanto a Sua existência,

Quando nos deparamos com uma tragédia –

Seja ela de grandes ou pequenas proporções –

Principalmente quando a vida de inocentes é tirada,

Deixando famílias desamparadas.

A tragédia da qual trato aqui,

Levou embora um marido dedicado, um pai amoroso, um filho exemplar, um amigo do peito,

Tirou enfim, o alicerce de uma família

Que se viu de repente, sozinha, desamparada,

Sem acreditar que Ele tivesse tido a coragem de deixar que tal coisa acontecesse.

Mas aconteceu!

E ninguém conseguiu entender o motivo pelo qual Deus faria,

Tamanha maldade.

Todos ficaram extremamente preocupados com a família

Separada assim tão repentinamente do ser amado.

Muitos duvidaram que conseguissem superar tamanho trauma,

E sobrevivessem à tragédia.

Mas eles sobreviveram.

Pois, quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela.

A janela em questão foi aberta à força,

Mas quando viu que seus filhos dependiam

Da sua permanência aberta,

Ela tirou forças, ninguém sabe de onde,

Quem sabe talvez Dele,

E assumiu o controle do seu lar,

Mantendo todos à tona,

Apesar da tragédia.

Foi como se, por um milagre,

O coração que havia deixado de bater em um,

Viesse juntar-se ao que havia deixado partido,

Dando-lhe força e coragem.

Deixando o seu papel de coadjuvante,

Para se tornar o protagonista.

Ser mãe não é fácil,

Ser mãe e pai ao mesmo tempo é uma tarefa hercúlea.

Que Deus só dá,

Para aqueles que podem executá-la,

Nunca para castigá-los,

Mas sim para tirá-los das sombras,

E fazê-los brilhar.

E devemos curvar-nos, tirar nossos chapéus respeitosamente,

E dar-lhes o nosso mais sincero aplauso.

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Monólogo da loucura (Diurno)

Monólogo da loucura (diurno)

Não dormi nada!

Não quero acordar!

Dormir para sempre!

Que sonho!

Não tenho mais sonhos….

Só o pesadelo de viver sempre acordada,

Tão desperta, que é como se seu estivesse dormindo…

Levantar, comer, beber.

Bloquear a luz do sol.

Fechar tudo!

Eu não aguento mais comer isto,

Mas se eu comer outra coisa,

E esta coisa crescendo dentro de mim estourar?

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Respirar, eu não consigo respirar.

Calma, calma, eu tenho que ter calma.

Respire, respire, respire.

Eu não sinto meus pés e mãos.

Eu tenho que me sentar.

Não consigo chegar até o sofá.

Vou me deitar no chão.

Me acalmar, respirar, respirar, morrer no chão e nunca mais respirar.

Ou não!

Me levantar, me arrastar, continuar me arrastando,

Como um verme….

Levo uma vida de verme!

Deus se esqueceu de mim!

Ser esmagada por Seu pé misericordioso!

Aí eu acreditaria de novo!

De novo ou pela primeira vez?

Respirar e me acalmar.

Relaxar!

O que eu daria para poder relaxar?

E se eu saísse?

Aonde eu iria?

Não tenho ninguém.

Não conheço ninguém.

Ninguém se importa comigo.

Morrer como ninguém.

Talvez num cruzamento?

A porta da rua é ameaçadora.

Minhas pernas não conseguem cruzá-la.

Meu destino está lá fora,

E eu não consigo sair para encontrá-lo.

Respirar fundo, fechar os olhos e sair.

Um, dois, três…

Não hoje!

Quem sabe outro dia!

Haverá outro dia?

Não se Deus tiver piedade de mim!

Minha cabeça só pensa coisas sem sentido.

Como eu gostaria de parar de pensar!

Pensamentoacelaradosemparanuncaese

eufizeracirurgiaeseeumorrerseeumorrervoudormir

parasempremasseeunãomorrereficarvegetando

todosemvoltademimachandoqueeunãoentendo

nadaodesesperoMeuDeusestoubemaqui

confiaremquemquempodemeajudar?

Parar de pensar!

Respirar, parar, relaxar, descansar, sair porta afora sem me preocupar.

As pernas não me obedecem.

O meu corpo não me obedece.

Meu corpo?

Não reconheço este corpo decrépito como meu.

Esta caveirinha recoberta de peles enrugadas.

Esta não sou eu.

O que restou de mim,

Não sou eu.

Quem serei eu?

Eu não me reconheço.

Não reconheço as pessoas.

Sou indiferente a tudo e todos.

As coisas passam como num filme.

Um filme pelo qual não tenho o mínimo interesse.

A vida não me interessa.

Nem a minha, nem a de ninguém.

Fantasma de mim mesma,

Deliro acordada que durmo.

Durmo e sonho que tudo não passou de um pesadelo.

Um sonho ruim,

Que parece não acabar nunca.

E que quando acaba,

Vemos que o medo não valeu a pena.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Alguém, por favor, me dê Fé.

Alguém, por favor, me ajude.

Alguém, por favor, me acorde.

Respirar, eu preciso respirar.

Ajuda, eu preciso de ajuda.

Acreditar, eu preciso acreditar.

Amor, eu preciso aprender a amar novamente.

Matar a indiferença que cresce dentro de mim.

Eu preciso sair deste labirinto,

Eu tenho que encontrar um caminho.

Quem pode me ajudar?

Quem vai me dar a mão?

Quem vai me fazer respirar?

Quem vai me empurrar para fora da porta?

Quem? Quando? Como? Onde?

Respirar…

Respirar…

Dormir e nunca mais respirar.

Que sonho!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Quem se importa com o copo!

Vivemos o tempo todo cercados de clichês e lugares comuns e, muitas vezes, não percebemos a existência de pessoas e coisas extraordinárias. Nós nos perdemos num mar de monotonia e não conseguimos enxergar além, mas estas pessoas não só veem tudo mais claro: elas iluminam tudo ao seu redor.

A maioria das pessoas se divide entre aqueles que veem o copo meio cheio ou meio vazio. As extraordinárias não perdem tempo e enchem qualquer copo que aparecer no seu caminho. Se a vida lhes der limões, elas não fazem limonada. Elas fazem mousse de limão. Chorar? Só se for de emoção! Nunca pelo leite derramado. O pão delas cai sempre com a manteiga para cima. E se cair para baixo? É só dar uma assopradinha! Elas não esperam a oportunidade bater à porta: elas saem por aí abrindo todas as portas e levando oportunidades para aqueles que esperam.

Elas não são meras Pollyannas e sabem muito bem quão dura a vida é, e – por isto mesmo – não descansam enquanto não veem todos ao seu redor bem. Elas não são somente noras, elas se tornam filhas. Elas não são só cunhadas, elas se tornam irmãs. Elas não são só parte da família, são nossas amigas. Elas são esposas, mães e avós exemplares. Elas estão por aí, cheias de energia (pilha duracell?), esquecendo tudo em todos os lugares. Elas só não se esquecem do que é mais importante: das pessoas que gravitam ao seu redor. Elas são os sóis das nossas galáxias. Poderíamos viver sem elas? Talvez. Mas que vida triste seria esta!

Stefano Paterna Venedig-20

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Terapia do riso

Há exatamente 13 anos eu levava a vida de uma mulher adulta de sucesso: eu tinha meu próprio negócio; estava vivendo com meu namorado há sete anos; tinha uma vida social e cultural bem interessante; vivia num bairro excelente, em uma das cidades mais desenvolvidas do mundo (São Paulo); eu tinha tudo que a maioria das pessoas luta por: uma carreira sólida; um bom relacionamento; uma vida confortável, etc. É claro que eu tinha que trabalhar das 6 da manhã às 11 da noite seis dias por semana. Mas, quem não tinha? Uma manhã, quando o alarme tocou às 5 da manhã, eu me levantei e quando eu coloquei meus pés no chão eu senti uma dor tão forte que parecia que alguém estava me esfaqueando, eu tive que me sentar e mal podia respirar. Foi o começo de um ano cheio de consultas médicas; exames exaustivos; diagnósticos e tratamentos errados. No final daquele ano, eu finalmente recebi o diagnostico correto: eu tinha uma discopatia degenerativa entre L5-S1 e meu médico me recomendou um programa experimental em um hospital público. Eu fiquei chocada quando ele me disse que eu tinha que participar do programa e frequentar um hospital público por uma semana inteira, ficando lá desde manhã até a noite. O programa trazia tratamentos não convencionais. A primeira coisa que eles fizeram foi explicar exatamente o que tínhamos, o que poderia ser a causa e o que deveríamos evitar para agravar o problema. Eles nos ensinaram como deveríamos nos sentar, nos mover e dormir confortavelmente. Recomendaram acupuntura para aliviar a dor e começaram a trazer vários profissionais que nos ensinaram a relaxar e nos divertir. Eles nos ensinaram que tínhamos que aprender a lidar com o stress para podermos ter uma vida sem dor. Então eu comecei a fazer acupuntura, terapia e tentei arrumar um tempinho na minha agenda para “me divertir”. A acupuntura me ajudou a lidar com a dor e a terapia a achar as rachaduras na minha vida perfeita: eu vi que tinha levava uma vida que eu não queria. Eu não queria ter aquele negócio e todas as responsabilidades que eu tinha; eu gostava do meu namorado, mas não o amava; e, apesar de sempre ter amado viver em São Paulo, já era hora de me mudar. A vida que eu tinha podia parecer perfeita, mas eu era uma pessoa chata e chateada vivendo uma vida estressante. Além de trabalhar muito, o meu “divertimento” não era muito divertido. Eu ia ao cinema pelo menos duas vezes por semana, mas sempre assistia a dramas. Meu namorado dizia que minha avaliação dos filmes ocorria da seguinte maneira: uma lágrima – OK; um bom choro – legal; um pranto inconsolável – excelente! O mesmo sistema era utilizado para peças teatrais e livros. Eu assinava – e lia! – 2 jornais e assistia aos noticiários em Português, Inglês e Espanhol todos os dias.  Eu adoro estudar línguas, mas eu estava estudando Espanhol, Italiano e Francês ao mesmo tempo. Eu tentei me acomodar àquela vida, pois quando todos acham que sua vida é maravilhosa começamos a pensar que talvez nós estejamos errados. Mas, depois de algum tempo, eu decidi que deveria mudar tudo: eu vendi minha parte na sociedade; desmanchei meu namoro e viajei para o Nordeste sem passagem ou data de volta. Eu não tinha nenhum plano. Fiquei um mês sem fazer nada em Jericoacoara (Ceará) e dois meses em Pipa, Galinhos, São Miguel do Gostoso e Natal (Rio Grande do Norte). Quando eu cheguei em Natal eu comecei a trabalhar para um amigo e quando me dei conta estava morando há 11 anos lá. Depois vivi em Pipa durante 6 meses e agora vivo em Marília (interior de São Paulo) há mais de um ano. Eu tenho levado uma vida simples, mas confortável e saudável. Eu mudei completamente minha atitude perante à vida. Eu li alguns textos que falavam sobre a terapia do riso do Norman Cousin e decidi experimentar: meu sistema de avaliação agora funciona assim: um sorriso – OK; muitas risadas – muito bom; gargalhadas incontroláveis – excelente. Eu ainda assisto aos noticiários, mas não todos os dias e nunca, nunca mesmo, vejo os detalhes sórdidos. Eu comecei a assistir desenhos animados novamente e os adoro (Tom e Jerry; Ed, Edd and Eddy e Foster’s Home for Imaginary Friends são meus favoritos). Eu sempre assisto às series cômicas: Seinfeld e Frasier são clássicos que eu sempre voltarei a ver, mas eu também gosto de Two and a Half Men (com Charlie Sheen ou Ashton Kutcher); The Big Bang Theory; Modern Family; How I Met Your Mother; Los Caballeros las Prefieren Brutas e Los Simuladores. Eu sei que a pergunta é se a terapia funcionou ou não. A resposta é afirmativa. Mas não foi fácil. Quando você decide viver uma vida diferente da qual a pessoas esperam que você leve, você será julgado e rotulado de difícil ou excêntrico. Eu não me arrependo das escolhas que eu fiz. Meu disco “degenerado” ainda está lá no mesmo lugar e de vez em quando dá sinal de vida. Mas nunca mais eu senti aquela dor insuportável. Eu não sou ingênua e sei que a vida pode ser dura. Eu escolhi não me preocupar tanto e tentar vivê-la da melhor maneira possível.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com