O médico e o monstro

Que a relação médico-paciente está na UTI não é nenhuma novidade. Muitos acreditam que não há salvação. Os mais céticos dizem que a morte cerebral já está decretada, só estamos esperando para ver o que vamos fazer com os restos mortais.

Os pacientes reclamam da demora em se conseguir uma consulta ou exames. Um mês, dois meses para aqueles que têm a sorte de ter um plano de saúde. Para aqueles que dependem do sistema público, os prazos são escandalosos. Os governos (municipal, estadual e federal) não destinam as verbas necessárias para este setor. As que são destinadas – todos sabem – não chegam ao seu destino final ou são mal administradas. A maior ironia neste cenário é que se os governos atendessem os pacientes que procuram atendimento médico de base fariam uma economia enorme.

Com este cenário cada vez mais degradante, a população acaba se vendo obrigada a obter um plano de saúde. Os convênios médicos tentam aproveitar a demanda. Só que ao invés de aumentar também o seu quadro de profissionais, investe somente na captação de novos clientes, sem se importar se a rede credenciada pode ou não atender à demanda.

O dinheiro captado através desta nova clientela não vai parar – com certeza – nas mãos dos médicos conveniados. Com uma remuneração cada vez menor, muitos se vêm obrigados a aumentar o número de consultas. O resultado é um grande número de profissionais trabalhando muitas horas e não dando atenção devida aos seus pacientes.

O que nos resta são consultórios lotados, médicos cansados e desatentos, atendentes irritadas e pacientes que cada vez mais fazem jus ao nome? Muitos diriam que sim. Eu digo que ainda não. Estamos bem perto disto. Não há dúvida! Mas ainda é possível encontrar bons médicos que irão atendê-lo bem. Não é uma tarefa nada fácil. Mas devemos tentar.

O primeiro passo é deixar de acreditar que os médicos são deuses intocáveis e que não devemos questioná-los mesmo tendo dúvidas. Se seu médico não gosta de responder às suas perguntas ou faz cara de tédio quando questionado, é porque ele não é o profissional certo para você. Se ele só atender “por ordem de chegada” porque não pode esperar 1 segundo por nenhum paciente e, ainda por cima, chegar sempre atrasado, não espere. Há outros melhores que irão sim marcar uma hora para vê-lo e que – na grande maioria das vezes – serão pontuais. Vão escutá-lo e responder suas perguntas.

O que nós devemos fazer como consumidores, pois é isso que somos, é pesquisar. Não fazemos pesquisa de preço e qualidade de outros produtos que adquirimos? Por que não utilizamos o mesmo padrão quando se trata da nossa saúde?

Não é fácil, é verdade. Mas não é impossível. Às vezes, é uma tarefa árdua: eu levei quase três anos e quatro médicos diferentes, além do começo de um tratamento caro e invasivo que não resultou em nada, para descobrir que o tratamento que eu procurava era extremamente simples, barato e rápido que não me foi oferecido anteriormente, não porque os outros profissionais o desconhecessem, mas sim porque estavam interessados em me vender soluções que seriam monetariamente mais rentáveis para eles – mesmo que não fossem adequadas e não fossem resolver o problema.

Até quando vamos aceitar condutas com tanta falta de ética?

Os profissionais da saúde merecem, com certeza, nosso respeito. Mas para tanto, devem se dar ao respeito.

Para resolvermos a crise da saúde, precisamos deixar de lado as rezas e passar a agir.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

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