Bem-vindos à segunda metade da minha vida

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que alguém me chamou de senhora. Foi numa biblioteca do SESC e, se não fosse pela polêmica causada, eu acho que o fato teria passado em branco. Um dos atendentes me chamou de “senhora” e o outro, indignado, lhe disse que eu, obviamente, não era uma “senhora”. Imagina chamar esta mocinha de “senhora”. O coitado quis se explicar e disse que não havia me chamado de “senhora” por me achar velha e sim por respeito. O outro, que queria mesmo pegar no pé dele, replicou que então ele deveria ter me chamado de “senhorita”. O primeiro, querendo agora se defender, lhe explicou que senhora era usado para mulheres casadas e senhorita para solteiras. Como ele não sabia se eu era casada ou solteira, tinha optado por “senhora”. Tal observação foi seguida da óbvia pergunta sobre meu estado civil. A declaração da minha solteirice e minha falta de vontade de continuar a polêmica deram a vitória ao segundo atendente, que passou imediatamente a me chamar de você e, se eu lhe desse um pouquinho mais de atenção, teria pedido meu telefone.

Eu tinha então 28 anos e até mais ou menos meus 35, as pessoas não me chamavam de senhora. Desde de então, um “senhora” aqui e outro acolá, até que – não sei quando! – o “senhora” passou a ser a regra. Principalmente partindo de mulheres. Elas são sempre mais implacáveis com os sinais do tempo que marcam as outras.

Recentemente, um caso inverso aconteceu. Uma aluna me chamou de você. A outra, indignada, lhe disse para ter mais respeito e lhe perguntou se ela chamava os pais dela de você. A confusão foi então armada. Uns dizendo que eu tinha idade para ser “você” e outros dizendo que “senhora” era só por uma questão de respeito, pois era óbvio que eu não tinha a idade dos pais dela. Tive que resolver a questão perguntando a idade dos pais. E, realmente, eu não tinha a mesma idade deles. Eu era 10 anos mais velha! Ao ouvirem minha idade todos protestaram e ninguém acreditou. Eles achavam que eu era muito mais nova.

A grande maioria das pessoas fica surpresa quando digo minha idade, mas o “senhora” já é uma realidade cotidiana e, se eu tiver a mesma sorte das minhas avós, pode-se dizer que eu sou uma senhora de meia-idade. Os meus 47 anos podem ser o marco da metade da minha vida.

Muitas pessoas ficariam deprimidas com esta conclusão, mas eu faço parte do grupo da “metade cheia”. Sendo assim, bem-vindos à segunda metade da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos os que estiveram nela até o momento – seja com mais ou seja com menos frequência. Foi um prazer tê-los comigo e será um prazer imenso ter o privilégio de contar com vocês na segunda metade que se inicia. Que venham novos amigos, novos amores, novos desafios e novas experiências. Que as decepções sejam impulsos para novas conquistas. Que eu tenha coragem para fazer aquilo que eu nunca tive. Que um mundo de novos horizontes se abra e que eu aceite as mudanças de forma sábia (como convém a uma senhora de meia-idade) e saiba me adaptar às novas circunstâncias.

Que a segunda seja tão boa quanto à primeira!

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Reason # 30

People usually feel sorry for the singles and the last ones feel sorry for themselves as well. Most singles suffer from self-pity. Whose fault is this? What have I done to deserve it? Nobody loves me and nobody cares about me! What a pity! I could be a good parent! Who is going to take care of me when I get old? Those few singles, who feel well, end up feeling guilty about their wellness (Am I normal?), or they pretend to be unhappy just to please others.

Why is it so difficult for everyone to admit that there are people that live alone and are not lonely? Why does that bother people so much? Jealousy? Are they missing the “good old times”?

To get married or not to get married: that is the question. Think properly. Think about the pros and cons. Be sure you are not just following the flow or being afraid of ending up alone. Of course, if things get bad, you can get divorced. Even though divorces are more and more common nowadays, they still bring a lot of trouble and break hearts. You have to think even more carefully when deciding to have kids. You have to be prepared psychologically, mentally and financially for that. We must have the conscience that when we become involved with any other being (a partner, a child or even a pet) we are signing a commitment term of giving them our love, care and thoughts, of giving them our best. If you feel you are ready for that commitment, go for it. Conscious love is the goal.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Source: Reason # 30

Reason # 29

Divorcing brings up dealing with child custody and support; spousal support and alimony laws; property distribution and/or – more and more common nowadays – debts distribution. Most couples make loans that are hardly paid at the due date when they are together; when they get divorced, their debts are usually bigger than their assets. Their standard of living falls. Children have to change schools and houses. Guilty parents try to compensate that, giving them anything they want, thus making more debts. Two different houses, double expenses, half of the income. Assets divided, half for the lawyers, half for the divorcees.

Run for your life!

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Source: Reason # 28

Stefano Paterna’s Book

Whoever follows this blog, knows Stefano Paterna’s beautiful pictures.

He has just published his book.

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Congratulations Stefano!!!!

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Eu sobrevivi à minha mãe

Eu nunca quis ser mãe, não sou mãe e nunca serei mãe. Meu relógio biológico nasceu quebrado e nunca soou.

Os motivos são vários, mas acredito que a falta de coragem para arcar com esta responsabilidade foi decisiva.

Eu nunca me senti preparada para assumir tal papel. Eu nunca quis repetir a minha história.

Eu cresci vendo minha mãe sofrer, enlouquecendo a cada passo nosso. Fazendo o seu melhor e nos dando o seu pior. E eu sei que é fácil criticar, e que ela fez tudo para ser uma boa mãe. Mas, pelo menos para mim, ela sempre foi uma nuvem sombria pairando sobre a minha cabeça. Na vã tentativa de me proteger de tudo e todos, ela me fez acreditar – por um bom tempo – que eu não era capaz de fazer nada direito. Tudo o que eu queria era muito difícil, levava muito tempo e alguém tinha morrido frustrado tentando fazer.

Assim, desde pequena, eu fui desistindo de uma coisa atrás da outra.

Pode até ser que eu realmente não tivesse nascido para fazer aquelas coisas, e que a minha falta de aptidão fosse real, mas eu nunca vou saber de verdade, pois eu desisti antes mesmo de realmente tentar. Cada tentativa era – e ainda é – seguida de uma crítica virulenta. Eu nunca, nunquinha mesmo, recebi um elogio da minha mãe que não fosse imediatamente seguido de um grande MAS….

Uma das primeiras coisas que ela me fez desistir foi das artes plásticas. Com medo de que eu tentasse seguir o exemplo do meu pai, ela não nunca poupou críticas e quando alguém dizia que eu tinha jeito para coisa ela mostrava todos os defeitos aparentes nas minhas telas infantis. Depois foi o balé: eu era desajeitada e não nunca conseguiria ser graciosa; o canto e o violão: desafinada!

Ela só não conseguiu fazer com que eu desistisse das aulas de Inglês. Foi uma briga de mais de um mês, pois ela não queria que eu fosse sozinha até a escola. Eu venci esta briga. Ainda bem, pois hoje eu sou professora deste idioma.

Eu consegui ser professora de Inglês em escolas de idiomas apesar dela. Eu nunca tinha pensado em ser professora e quando eu fui convidada pela coordenadora da escola para tentar, ela foi contra.

Aliás, todas as vezes que eu arrumo um novo emprego e começo algo, ela me deseja boa sorte: “Boa sorte, você vai precisar! Você vai ver como é difícil! Não vão te pagar direito, etc.”

Eu sei que esta é a maneira torta que ela tem para me proteger. Ela prefere me desiludir logo de cara, assim eu não vou sofrer. Ela acha que se a crítica vier dela, minha decepção será menor.

Ela conseguiu me prender neste círculo infernal durante toda a minha infância. Eu passei anos me achando feia, barriguda, desajeitada. Ela me fazia acreditar que todos estavam nos julgando o tempo todo e que éramos preteridos. Minha avó preferia as outras tias, e consequentemente, os outros netos. Ela se sentia preterida e, ao invés de nos proteger deste sentimento, ela fazia questão de nos contaminar.

Na minha adolescência, graças às famílias das minhas amigas, eu passei a ver o mundo através das nuvens pretas. Eu vi um mundo bonito, e, melhor ainda, eu vi que eu poderia ter um lugar nele. Esta foi a minha fase “diabólica”. É assim que minha mãe denomina a fase que eu passei a viver, apesar dela.

Eu sei que tudo o que ela fez é inconsciente, e que se é duro viver com uma nuvem negra pairando sobre a sua cabeça. Mil vezes mais duro deve ser, ser a nuvem.

A nuvem dela está cada vez mais negra, e tomou conta completamente dela. Ela não tem forças para lutar contra a escuridão.

Está cada vez mais difícil também, brilhar apesar dela. Eu luto todos os dias para não deixar que ela me ofusque, e que toda a negatividade, maldade e desânimo não me contamine. Eu estou cada vez mais cansada de lutar contra a tempestade.

Eu sobrevivi à minha mãe, ao seu senso crítico, à sua insatisfação crônica, ao seu dever de me informar quão desajeitada eu era – eu sou – para a vida.

Mas está cada vez mais difícil sobreviver à sua depressão e falta de vontade de viver.

A luta diária para achar compaixão por alguém que tão pouco me mostrou este lado é árdua. Ter dó de quem não tem dó de ninguém, é cansativo. Ignorar os comentários maldosos, recalcados e repletos de ressentimento é uma luta diária. Não ressenti-los, é uma batalha homérica.

Até agora eu consegui ver através das nuvens, me afastar da tempestade e sobrevivi aos raios e trovões. Mas eu sinto, cada vez mais forte, a ameaça. Eu sou uma sobrevivente, e espero que meu instinto de sobrevivência seja maior que o meu filial. E para tanto, eu rezo todos os dias: para manter a escuridão longe de mim!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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A Janela

Quem somos nós para questionar os desígnios de Deus?

Ou, melhor: quem somos nós para questionar a sua existência?

Criada na fé católica,

Cresci desacreditando na Instituição,

E desconfiando de um Deus tão dicotômico,

Que ora implacavelmente castiga com uma mão e

E ora misericordiosamente salva com a outra.

Flertei – blasfêmia?- com outras filosofias e religiões,

E, se não encontrei uma resposta plausível para tudo,

Pelo menos encontrei um Deus mais justo:

Que nos dá o livre arbítrio e nos permite fazer escolhas (certas e/ou erradas) o tempo todo.

Mas, não importa qual seja a nossa Religião, Crença ou Filosofia,

Nada nos faz questionar tanto a Sua existência,

Quando nos deparamos com uma tragédia –

Seja ela de grandes ou pequenas proporções –

Principalmente quando a vida de inocentes é tirada,

Deixando famílias desamparadas.

A tragédia da qual trato aqui,

Levou embora um marido dedicado, um pai amoroso, um filho exemplar, um amigo do peito,

Tirou enfim, o alicerce de uma família

Que se viu de repente, sozinha, desamparada,

Sem acreditar que Ele tivesse tido a coragem de deixar que tal coisa acontecesse.

Mas aconteceu!

E ninguém conseguiu entender o motivo pelo qual Deus faria,

Tamanha maldade.

Todos ficaram extremamente preocupados com a família

Separada assim tão repentinamente do ser amado.

Muitos duvidaram que conseguissem superar tamanho trauma,

E sobrevivessem à tragédia.

Mas eles sobreviveram.

Pois, quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela.

A janela em questão foi aberta à força,

Mas quando viu que seus filhos dependiam

Da sua permanência aberta,

Ela tirou forças, ninguém sabe de onde,

Quem sabe talvez Dele,

E assumiu o controle do seu lar,

Mantendo todos à tona,

Apesar da tragédia.

Foi como se, por um milagre,

O coração que havia deixado de bater em um,

Viesse juntar-se ao que havia deixado partido,

Dando-lhe força e coragem.

Deixando o seu papel de coadjuvante,

Para se tornar o protagonista.

Ser mãe não é fácil,

Ser mãe e pai ao mesmo tempo é uma tarefa hercúlea.

Que Deus só dá,

Para aqueles que podem executá-la,

Nunca para castigá-los,

Mas sim para tirá-los das sombras,

E fazê-los brilhar.

E devemos curvar-nos, tirar nossos chapéus respeitosamente,

E dar-lhes o nosso mais sincero aplauso.

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Monólogo da loucura (Diurno)

Monólogo da loucura (diurno)

Não dormi nada!

Não quero acordar!

Dormir para sempre!

Que sonho!

Não tenho mais sonhos….

Só o pesadelo de viver sempre acordada,

Tão desperta, que é como se seu estivesse dormindo…

Levantar, comer, beber.

Bloquear a luz do sol.

Fechar tudo!

Eu não aguento mais comer isto,

Mas se eu comer outra coisa,

E esta coisa crescendo dentro de mim estourar?

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Respirar, eu não consigo respirar.

Calma, calma, eu tenho que ter calma.

Respire, respire, respire.

Eu não sinto meus pés e mãos.

Eu tenho que me sentar.

Não consigo chegar até o sofá.

Vou me deitar no chão.

Me acalmar, respirar, respirar, morrer no chão e nunca mais respirar.

Ou não!

Me levantar, me arrastar, continuar me arrastando,

Como um verme….

Levo uma vida de verme!

Deus se esqueceu de mim!

Ser esmagada por Seu pé misericordioso!

Aí eu acreditaria de novo!

De novo ou pela primeira vez?

Respirar e me acalmar.

Relaxar!

O que eu daria para poder relaxar?

E se eu saísse?

Aonde eu iria?

Não tenho ninguém.

Não conheço ninguém.

Ninguém se importa comigo.

Morrer como ninguém.

Talvez num cruzamento?

A porta da rua é ameaçadora.

Minhas pernas não conseguem cruzá-la.

Meu destino está lá fora,

E eu não consigo sair para encontrá-lo.

Respirar fundo, fechar os olhos e sair.

Um, dois, três…

Não hoje!

Quem sabe outro dia!

Haverá outro dia?

Não se Deus tiver piedade de mim!

Minha cabeça só pensa coisas sem sentido.

Como eu gostaria de parar de pensar!

Pensamentoacelaradosemparanuncaese

eufizeracirurgiaeseeumorrerseeumorrervoudormir

parasempremasseeunãomorrereficarvegetando

todosemvoltademimachandoqueeunãoentendo

nadaodesesperoMeuDeusestoubemaqui

confiaremquemquempodemeajudar?

Parar de pensar!

Respirar, parar, relaxar, descansar, sair porta afora sem me preocupar.

As pernas não me obedecem.

O meu corpo não me obedece.

Meu corpo?

Não reconheço este corpo decrépito como meu.

Esta caveirinha recoberta de peles enrugadas.

Esta não sou eu.

O que restou de mim,

Não sou eu.

Quem serei eu?

Eu não me reconheço.

Não reconheço as pessoas.

Sou indiferente a tudo e todos.

As coisas passam como num filme.

Um filme pelo qual não tenho o mínimo interesse.

A vida não me interessa.

Nem a minha, nem a de ninguém.

Fantasma de mim mesma,

Deliro acordada que durmo.

Durmo e sonho que tudo não passou de um pesadelo.

Um sonho ruim,

Que parece não acabar nunca.

E que quando acaba,

Vemos que o medo não valeu a pena.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Alguém, por favor, me dê Fé.

Alguém, por favor, me ajude.

Alguém, por favor, me acorde.

Respirar, eu preciso respirar.

Ajuda, eu preciso de ajuda.

Acreditar, eu preciso acreditar.

Amor, eu preciso aprender a amar novamente.

Matar a indiferença que cresce dentro de mim.

Eu preciso sair deste labirinto,

Eu tenho que encontrar um caminho.

Quem pode me ajudar?

Quem vai me dar a mão?

Quem vai me fazer respirar?

Quem vai me empurrar para fora da porta?

Quem? Quando? Como? Onde?

Respirar…

Respirar…

Dormir e nunca mais respirar.

Que sonho!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Monólogo da loucura

Acordei!

Será que dormi?

Que horas são?

Não vou olhar no relógio.

Se não dormi, vou ficar nervosa e não durmo mais.

Tomo mais um quartinho do remédio?

Mas, se eu dormi?

Aí não preciso tomar o remédio.

Olho a hora ou não?

Não, só vou descansar!

Acho que eu não dormi.

Estou tão cansada!

Como gostaria de dormir uma noite inteira!

Ah, o sino…. Uma, duas, três? Duas ou três horas da manhã?

Agora vou olhar. Duas!

Bem que poderiam ser três.

Dormir! Dormir para sempre!

Deus poderia ter dó de mim!

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Três?

Vou tomar mais um quartinho do remédio.

Ah! Se eu tivesse coragem!

Tomaria tudo e acabaria com esta agonia.

Dormir até a Eternidade!

Do que vale a vida?

Eu não tenho ninguém.

Eu não vou fazer falta para ninguém.

Ninguém liga para mim.

Até mesmo meus gatos estão melhor sem mim.

A vida não vale a pena.

A minha vida não vale a pena.

O que será que eu fiz para merecer isto?

Eu estou sendo castigada e não sei o motivo.

Dormir, eu preciso dormir….

Ai, que sede!

Se eu levantar para beber água, eu perco o sono.

Vou esquecer.

Não dá, vou beber água.

Vou tomar também o remédio.

Ah! O sono está vindo….

Ai, que vontade de fazer xixi!

Vou segurar, estou quase dormindo…

Não dá.

Perdi o sono.

Tomo mais remédio?

Não dá. Vou ter que dormir sem ele.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Quatro? Quatro ou cinco?

Este vento nunca me deixa ouvir as badaladas.

Este vento uivando é amaldiçoado.

Desde a minha adolescência, eu odeio este vento.

Eu odeio esta cidade.

Não sei o motivo pelo qual eu voltei.

Será que voltei para morrer?

Se for, se não morrer logo, me mato!

Ah! E a falta de coragem!

Agora estou como fome.

Vou tomar um chazinho de camomila e comer umas torradinhas para ver se me acalmo.

Cinco! Logo, logo é dia.

Se clarear, não durmo mais.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Talvez, se eu dormisse pelo menos um dia….

Seis!

Agora não durmo mais.

Nem com remédio.

Cheiro de pão torrado e café.

Que enjoo!

Barulho….

O inferno começou.

Lá vem uma moto.

Tomara que se estatele num poste!

Inferno! Inferno! Inferno!

Eu sou uma Rapunzel caquética morrendo aos poucos nesta torre de concreto!

Se jogar minha trança, ninguém virá me socorrer.

Será que está sol?

O sol me ofusca!

Minha enxaqueca me mata!

Antes me matasse de verdade!

Fechar tudo.

Tenho que fechar tudo.

Não posso ver o sol.

Não posso respirar este ar.

Este ar vai me matar.

A poluição aqui é insuportável.

O cheiro de gás.

O gás está me envenenando aos poucos.

Fazer cirurgia para quê?

Vou morrer envenenada mesmo!

Se eu dormisse e não acordasse….

A roupa com a qual eu vou ser enterrada já está pronta.

Eu estou pronta!

Eu estou pronta?

Eu não estou pronta!

Eu estou ficando louca.

Eu não quero morrer.

Se eu quisesse morrer, não teria medo de fazer a cirurgia.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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