Pânico de ter síndrome do pânico

Há alguns meses, eu criei a “consciência” de que eu tinha um coração. Antes, eu sabia que ele existia, mas nunca tinha prestado tanta atenção aos seus batimentos. Comecei a acordar de noite sentindo o coração bater forte. O mesmo ocorria durante o dia.

Além da taquicardia, eu comecei a ter fortes dores no peito e fui parar no pronto-socorro.

O médico que me atendeu foi muito atencioso e, depois de realizar alguns testes, sugeriu que eu procurasse um cardiologista para checar os episódios de taquicardia, mas que achava que não era nada preocupante. Me perguntou se eu tinha refluxo e, ao ouvir minha resposta positiva, me sugeriu também procurar um gastroenterologista para verificar a dor no peito, que poderia ser causada por algum problema estomacal. A sua terceira sugestão foi para gerenciar o stress, pois tudo o que eu estava sentindo poderia ser gerado por stress, ansiedade e até mesmo pânico.

Resolvi seguir os seus conselhos e consultei um cardiologista que, depois de alguns exames, viu que eu realmente tinha alguns episódios de taquicardia, mas que não tinham relação com algum problema físico e sim com stress.

Ele me receitou um remedinho para “dar uma desacelerada” no coração.

Ao mesmo tempo consultei uma psiquiatra, que, depois de eu contar o que tinha ocorrido, me fez exatamente 5 perguntas e obteve as seguintes respostas:

1) Você chora com muita frequência sem motivo?

Não. Mas choro fácil assistindo filmes ou lendo livros que me emocionam.

2) Como estão as coisas no trabalho?

Estão ótimas. Gosto bastante dos meus alunos e das aulas que estou dando no momento.

3) Como você lida com a depressão e a síndrome de pânico da sua mãe?

Está cada vez mais difícil. Eu não sei mais o que fazer e sinto que a situação está me deixando doente. Fico preocupada, pois sei que ela conta comigo, mas não tenho mais forças para lutar contra uma coisa que ela mesma não quer lutar. As crises de choro e as ameaças de suicídio estão literalmente me matando.

4) Você é casada?

Não.

5) Tem filhos?

Não.

Diagnóstico: “Você nem precisa passar no gastroenterologista. Você não tem nada físico. Você teve um ataque de pânico e está começando uma depressão. Vai tomar um antidepressivo que tem sido bem aceito e voltar daqui a um mês.”

Saí de lá com o antidepressivo, entrei em um fórum de usuários e saí dele rezando para nunca precisar usar aquela droga.

Não tomei o antidepressivo e fui ao Gastro, que, depois de uma endoscopia, descobriu que eu estava com uma esofagite de refluxo, além de gastrite. Ele me disse que a dor que eu tive e estava tendo era da esofagite e me deu um tratamento.

Eu já estava tomando o remedinho dado pelo cardiologista, que tinha realmente dado uma “desacelerada” no coração.

Comecei então a sentir tontura e minhas mãos ficavam geladas. Como minha mãe tem síndrome do pânico, sei que estes são alguns dos sintomas. Eu estava decidida a não deixar que eles tomassem conta de mim e andei uma semana inteira pela cidade trabalhando e passando mal. Até que um dia, passando por um local onde estavam tirando a pressão, resolvi checar a minha, que estava muito baixa.

Fiquei aliviada, pois minha tontura e minhas mãos geladas não eram pânico.

Liguei imediatamente para minha médica favorita (minha prima) que me disse que o remedinho que eu estava tomando abaixava a pressão. Me disse para tomar só metade da dose e ligar para o cardiologista. Ele recomendou então que eu ficasse só com metade da dose. Depois de uma semana eu comecei a me sentir um pouco melhor, mas minha pressão voltou a cair. Prima (parar o remédio e ligar para o cardiologista), cardiologista (parar o remédio e tomar um calmante natural). O cardiologista foi extremamente atencioso, me ligou vários dias para me passar as orientações e conversou comigo (tanto na consulta, quanto por telefone) muito mais tempo que a psiquiatra. Resolvi então, confiar nele e comecei a tomar o calmante natural.

Até então, já tinham se passado 2 meses e, embora eu já tivesse fazendo o tratamento para esofagite há um mês, a melhora tinha sido bem pequena. Como eu só estava fazendo o tratamento com medicamentos, resolvi adotar uma técnica que eu aprendi há muitos anos quando tive problemas crônicos de gastrite. Comecei a cortar tudo o que eu sentia que me fazia mal. Quem me conhece, sabe que eu já não como diversas coisas. Pois é, agora a lista cresceu um pouco. 🙂

Além de mudar a alimentação, mudei hábitos: deixei de dormir depois do almoço 😦, não como nada depois das 6 horas e levantei a cabeceira da cama.

Comecei então, a melhorar. Ainda tenho alguns episódios de dor, mas bem pequenos. Comecei a introduzir algumas coisas que eu tinha cortado da minha dieta. Mas estes dois meses me abalaram muito. O pânico de ter síndrome de pânico me deixou, literalmente, em pânico.

Eu sei que nenhum de nós está acima destes desequilíbrios químicos e só eu sei o que minha mãe tem passado com esta doença.

Espero, sinceramente, que eu consiga superar tudo sem a ajuda química. Pois, sei também o que um remedinho pode causar. Começamos com um e quando vemos estamos com dez.

Mas todo este episódio foi uma lição de humildade. Na correria do dia-a-dia, nos esquecemos de prestar atenção aqueles que mais precisam.

Era o que eu estava fazendo com a minha mãe. Eu estava suprindo as suas necessidades físicas, mas tinha desistido de tentar suprir as emocionais.

Eu deixei meu instinto de sobrevivência falar mais alto que o meu filial. Mas me esqueci de que sobreviver não é viver.

Ainda não tenho a menor ideia de como ajudá-la, mas eu tenho a certeza de que eu realmente preciso tentar mais.

Eu sei que o que ela passa é 100 vezes mais forte do que eu passei. Eu não sei como ela aguenta, uma vez que a sensação é horrível.

Nós não podemos nunca nos esquecer de nos colocarmos no lugar do outro. Pois, se não o fizermos, a vida nos colocará.

Agradeço a Deus pela oportunidade e peço forças para ajudar a quem mais precisa. O caminho ainda é longo e eu não sei como começar, mas ele está aberto para aqueles que tiverem a coragem de o trilhar. Eu estou disposta a tentar, o desafio é o de convencê-la a tentar também.

Fotoreise Sambia Malawi Stefano Paterna_10

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Source: Pânico de ter síndrome do pânico

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Monólogo da loucura (Diurno)

Monólogo da loucura (diurno)

Não dormi nada!

Não quero acordar!

Dormir para sempre!

Que sonho!

Não tenho mais sonhos….

Só o pesadelo de viver sempre acordada,

Tão desperta, que é como se seu estivesse dormindo…

Levantar, comer, beber.

Bloquear a luz do sol.

Fechar tudo!

Eu não aguento mais comer isto,

Mas se eu comer outra coisa,

E esta coisa crescendo dentro de mim estourar?

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Respirar, eu não consigo respirar.

Calma, calma, eu tenho que ter calma.

Respire, respire, respire.

Eu não sinto meus pés e mãos.

Eu tenho que me sentar.

Não consigo chegar até o sofá.

Vou me deitar no chão.

Me acalmar, respirar, respirar, morrer no chão e nunca mais respirar.

Ou não!

Me levantar, me arrastar, continuar me arrastando,

Como um verme….

Levo uma vida de verme!

Deus se esqueceu de mim!

Ser esmagada por Seu pé misericordioso!

Aí eu acreditaria de novo!

De novo ou pela primeira vez?

Respirar e me acalmar.

Relaxar!

O que eu daria para poder relaxar?

E se eu saísse?

Aonde eu iria?

Não tenho ninguém.

Não conheço ninguém.

Ninguém se importa comigo.

Morrer como ninguém.

Talvez num cruzamento?

A porta da rua é ameaçadora.

Minhas pernas não conseguem cruzá-la.

Meu destino está lá fora,

E eu não consigo sair para encontrá-lo.

Respirar fundo, fechar os olhos e sair.

Um, dois, três…

Não hoje!

Quem sabe outro dia!

Haverá outro dia?

Não se Deus tiver piedade de mim!

Minha cabeça só pensa coisas sem sentido.

Como eu gostaria de parar de pensar!

Pensamentoacelaradosemparanuncaese

eufizeracirurgiaeseeumorrerseeumorrervoudormir

parasempremasseeunãomorrereficarvegetando

todosemvoltademimachandoqueeunãoentendo

nadaodesesperoMeuDeusestoubemaqui

confiaremquemquempodemeajudar?

Parar de pensar!

Respirar, parar, relaxar, descansar, sair porta afora sem me preocupar.

As pernas não me obedecem.

O meu corpo não me obedece.

Meu corpo?

Não reconheço este corpo decrépito como meu.

Esta caveirinha recoberta de peles enrugadas.

Esta não sou eu.

O que restou de mim,

Não sou eu.

Quem serei eu?

Eu não me reconheço.

Não reconheço as pessoas.

Sou indiferente a tudo e todos.

As coisas passam como num filme.

Um filme pelo qual não tenho o mínimo interesse.

A vida não me interessa.

Nem a minha, nem a de ninguém.

Fantasma de mim mesma,

Deliro acordada que durmo.

Durmo e sonho que tudo não passou de um pesadelo.

Um sonho ruim,

Que parece não acabar nunca.

E que quando acaba,

Vemos que o medo não valeu a pena.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Alguém, por favor, me dê Fé.

Alguém, por favor, me ajude.

Alguém, por favor, me acorde.

Respirar, eu preciso respirar.

Ajuda, eu preciso de ajuda.

Acreditar, eu preciso acreditar.

Amor, eu preciso aprender a amar novamente.

Matar a indiferença que cresce dentro de mim.

Eu preciso sair deste labirinto,

Eu tenho que encontrar um caminho.

Quem pode me ajudar?

Quem vai me dar a mão?

Quem vai me fazer respirar?

Quem vai me empurrar para fora da porta?

Quem? Quando? Como? Onde?

Respirar…

Respirar…

Dormir e nunca mais respirar.

Que sonho!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

Monólogo da loucura

Acordei!

Será que dormi?

Que horas são?

Não vou olhar no relógio.

Se não dormi, vou ficar nervosa e não durmo mais.

Tomo mais um quartinho do remédio?

Mas, se eu dormi?

Aí não preciso tomar o remédio.

Olho a hora ou não?

Não, só vou descansar!

Acho que eu não dormi.

Estou tão cansada!

Como gostaria de dormir uma noite inteira!

Ah, o sino…. Uma, duas, três? Duas ou três horas da manhã?

Agora vou olhar. Duas!

Bem que poderiam ser três.

Dormir! Dormir para sempre!

Deus poderia ter dó de mim!

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Três?

Vou tomar mais um quartinho do remédio.

Ah! Se eu tivesse coragem!

Tomaria tudo e acabaria com esta agonia.

Dormir até a Eternidade!

Do que vale a vida?

Eu não tenho ninguém.

Eu não vou fazer falta para ninguém.

Ninguém liga para mim.

Até mesmo meus gatos estão melhor sem mim.

A vida não vale a pena.

A minha vida não vale a pena.

O que será que eu fiz para merecer isto?

Eu estou sendo castigada e não sei o motivo.

Dormir, eu preciso dormir….

Ai, que sede!

Se eu levantar para beber água, eu perco o sono.

Vou esquecer.

Não dá, vou beber água.

Vou tomar também o remédio.

Ah! O sono está vindo….

Ai, que vontade de fazer xixi!

Vou segurar, estou quase dormindo…

Não dá.

Perdi o sono.

Tomo mais remédio?

Não dá. Vou ter que dormir sem ele.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

E se eu não fizer a cirurgia?

E se esta coisa estourar no meu abdômen?

Aí, minhas chances são menores.

Pelo menos é o que eles dizem.

Mas eu não confio neles.

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Quatro? Quatro ou cinco?

Este vento nunca me deixa ouvir as badaladas.

Este vento uivando é amaldiçoado.

Desde a minha adolescência, eu odeio este vento.

Eu odeio esta cidade.

Não sei o motivo pelo qual eu voltei.

Será que voltei para morrer?

Se for, se não morrer logo, me mato!

Ah! E a falta de coragem!

Agora estou como fome.

Vou tomar um chazinho de camomila e comer umas torradinhas para ver se me acalmo.

Cinco! Logo, logo é dia.

Se clarear, não durmo mais.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Confiar em quem?

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Talvez, se eu dormisse pelo menos um dia….

Seis!

Agora não durmo mais.

Nem com remédio.

Cheiro de pão torrado e café.

Que enjoo!

Barulho….

O inferno começou.

Lá vem uma moto.

Tomara que se estatele num poste!

Inferno! Inferno! Inferno!

Eu sou uma Rapunzel caquética morrendo aos poucos nesta torre de concreto!

Se jogar minha trança, ninguém virá me socorrer.

Será que está sol?

O sol me ofusca!

Minha enxaqueca me mata!

Antes me matasse de verdade!

Fechar tudo.

Tenho que fechar tudo.

Não posso ver o sol.

Não posso respirar este ar.

Este ar vai me matar.

A poluição aqui é insuportável.

O cheiro de gás.

O gás está me envenenando aos poucos.

Fazer cirurgia para quê?

Vou morrer envenenada mesmo!

Se eu dormisse e não acordasse….

A roupa com a qual eu vou ser enterrada já está pronta.

Eu estou pronta!

Eu estou pronta?

Eu não estou pronta!

Eu estou ficando louca.

Eu não quero morrer.

Se eu quisesse morrer, não teria medo de fazer a cirurgia.

E se eu fizer a cirurgia?

E se eu morrer?

Se eu morrer, vou dormir para sempre!

Mas se eu não morrer e ficar vegetando?

Todos em volta de mim, achando que eu não entendo nada.

O desespero: Meu Deus! Estou bem aqui!

Quem pode me ajudar?

Deus? Eu não acredito mais em Deus.

Será que algum dia acreditei?

Que inveja daqueles que acreditam?

Val_3

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com