Monólogo da loucura 3

Esta sala é muito escura, sem vida, nem parece uma casa.

A manta e as almofadas novas são muito claras, vão sujar e estragar logo.

As lâmpadas são brilhantes demais, não dá nem para abrir os olhos.

Os quadros ficaram altos demais. Não gostei.

Não gostei das fotos nos porta-retratos.

Não aguento esta máquina de lavar roupas, faz muito barulho.

A máquina de lavar nova não faz barulho, mas é grande demais. Meu Deus, que exagero. Por que uma máquina tão grande?

Toda a vez que vou sair do meu quarto, tropeço no pé da cama.

Agora não tropeço mais no pé da cama, mas tenho que dar a volta nela para pegar qualquer coisa na cômoda. Não aguento andar tanto. Estou cansada.

Eu não aguento mais comer sempre a mesma coisa.

A canja está insossa. A caldo de carne está salgado demais. O arroz está duro. O peixe está temperado demais. O frango está seco. O pão está duro demais. O pão está mole demais. O macarrão está sem gosto. O molho está com alho demais. Os legumes estão duros. A mandioquinha cozinhou demais. A banana está madura demais. A banana está verde. O mamão pequeno está com uns carocinhos duros. O mamão Formosa é grande demais, vai estragar. Eu não consigo mastigar. Eu estou enjoada. O chocolate faz uma massa na boca e não derrete. O pêssego está duro demais.

Preciso tomar vitaminas, estou fraca demais.

Não consigo engolir os comprimidos.

Não consigo tomar a vitamina em pó, é muito ruim.

O antidepressivo está me deixando muito ansiosa e não me deixa descansar.

O calmante está me deixando muito mole e eu não consigo me levantar.

O chuveiro está muito quente.

O chuveiro está frio demais.

Preciso ter alguém para me ajudar.

Não aguento esperar pela moça que vem ajudar. Peça para ela não vir.

Estou como fome.

Não tem nada para comer. Já enjoei de tudo o que tem.

Quero me distrair para ver se fico um pouco menos ansiosa.

Não quero nem ver, nem ler jornal. É só desgraça. Não quero ver novela ou ver revistas, é muito fora da realidade. Não quero ver séries, pois não aguento ler as legendas. Não quero ler. Não consigo me concentrar. Pintar está me deixando nervosa. Não quero dar uma volta. Não quero sair de casa. Eu não aguento mais de ansiedade.

Estou com dor no corpo inteiro.

Não quero tomar remédio para dor. Não quero ir ao médico. Não quero fazer fisioterapia.

Meu colchão é duro demais.

Meu colchão novo é mole demais.

Meu outro colchão é duro demais.

O “pillow top” é torto.

Quero dormir.

Só consigo dormir tomando remédio. Estou tomando os remédios errados. Eu não preciso destes remédios. Eu estou cansada. Eu não consigo engolir os comprimidos. Eu não quero. Eu não posso. Eu estou cansada. Eu estou cansada. Eu estou cansada.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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A menininha

Era uma vez uma linda menininha. Uma princesinha loira e branquinha, tão encantadora que todos se apaixonavam assim que a viam. Tanta beleza atraiu logo os olhos invejosos da Maldade, que tentou ferir a menininha, lançando no seu corpo e na sua alma agulhas de despeito. Felizmente, as agulhas não atingiram o alvo e deixaram apenas algumas cicatrizes no corpo, pois a sua alma, tal como a de sua mãe, era daquele tipo que esquece e perdoa seus algozes.

Mas, a menininha, tendo batido a Maldade, começou a crescer com a ilusão de que tinha superpoderes e testava-os a cada oportunidade. Gatinha equilibrista no muro e na árvore. Pulando das alturas, atingindo o chão. Levitando sobre a pia do banheiro. Deixando o seu anjo da guarda enlouquecido e exausto. Algumas pessoas chegaram até duvidar do anjo, pobre coitado. Pois uma perninha quebrada aqui, uns pontinhos ali, sangue escorrendo dos múltiplos machucadinhos. O que eles não sabiam é que, devido ao grande risco que a menininha sempre corria, os pequenos arranhões que ela sofria, não eram distração do seu anjo, e sim avisos para que ela não se arriscasse tanto, para mostrar-lhe que ela tinha limites humanos, apesar dos seus superpoderes.

Tantas idas e vindas do hospital e do pronto socorro fizeram com que ela se interessasse por aqueles homens e mulheres que estavam sempre prontos para ajudá-la a colocar no lugar o que quer que seja que ela tivesse tirado fora. Sendo assim a menininha decidiu se tornar uma consertadora de gente. Escolheu consertar anjinhos que nascem de asa quebrada, pois se lembrou que em tão tenra idade a Maldade tentou também lhe ferir, e ela a venceu. Hoje em dia, luta contra a Maldade e a Fatalidade, tentando livrar os anjinhos das suas garras sujas. Muitas vezes vencendo, algumas perdendo, mas nunca perdendo a Esperança e a Alegria, suas companheiras de vida.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Meu segundo amor

Há 9 anos eu conheci meu segundo amor. Do primeiro eu havia escapado corajosamente, ao vislumbrar uma vida minada por crises de ciúmes. Ao fugir do primeiro, ao escolher a razão sobre a emoção, ao sofrer demasiadamente para me manter afastada, eu achava que havia perdido a capacidade de me apaixonar perdidamente por alguém novamente. Mas, fui surpreendida, ao ser invadida por sentimentos tão fortes, tantos anos depois. Aquela sensação de que todo o resto é supérfluo. Aquela certeza de que tudo o que você fez na sua vida, o fez para estar ali, junto daquela pessoa. De que não existe outro lugar tão perfeito para recostar a sua cabeça além daquele ombro ao seu lado. Aquela falta de ar, ao perder de vista o objeto do seu amor. Aquela sensação de estar finalmente em casa, de poder dormir em paz, um sono com sonhos bons. E, tal como o primeiro, o meu segundo amor também foi correspondido. O ciúme, porém, ficou fora de cena. Mas, o fato de termos vidas distintas em lugares diferentes nos causou sofrimento, à medida que víamos que o dia de nos separarmos chegava cada vez mais próximo. Achávamos que éramos as pessoas certas, na hora errada. Nos separamos de corações quebrados. E aquele foi um ano de idas e vindas. De discussões sobre ficarmos ou partirmos juntos. Em todas elas, chegávamos à mesma conclusão: o sacrifício seria grande demais. Mais uma vez eu deixei a razão vencer a emoção. Todos, inclusive a minha mãe, achavam que eu deveria partir com ele. Viver o meu grande amor. Mas eu não acredito em sacrifícios em nome do amor. Eu fiquei. De coração quebrado, mas fiquei. Ele foi. De coração quebrado, mas foi. Mas, ele voltou mais algumas vezes. Todas as vezes que ele volta, eu rezo para que eu me sinta diferente em relação a ele. Mas, não importa quanto tempo nós fiquemos afastados, quando nos encontramos é como se o tempo houvesse parado. Nada de estranho, tudo se encaixa naturalmente. É como se tivéssemos nos encontrado no dia anterior. Já nem falamos mais em ficar ou ir. Temos nossas vidas, em países diferentes, com culturas diferentes. Por um acaso, nos encontramos no meio do caminho, um caminho que não é o meu, nem é o dele. Covardes, não colocamos nosso amor à prova. Quem sabe se sobreviveria? O problema é que acabamos nos acomodando, temos um ao outro, mas vivemos a maior parte do tempo sozinhos. Nos amamos, mas não estamos juntos nem nos momentos bons, nem nos ruins. E, talvez, depois de 9 anos, seria inteligente pensar que não somos as pessoas certas, na hora errada. Depois de 78840 horas, seria prudente pensar que, talvez, sejamos as pessoas erradas, na hora errada, no lugar errado. Mas, desde de quando o amor é inteligente e prudente? O meu, infelizmente, o é. Talvez seja a hora de conhecer o meu terceiro amor. Um amor sem ciúmes, que esteja no lugar certo e na hora certa. Talvez, eu esteja pedindo demais. Mas, nunca se sabe. Talvez seja como dizem em inglês: “The third time’s the charm”.

Stefano Paterna Venedig-18

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Imaginação

“Logic will get you from A to Z; imagination will get you everywhere.”
Albert Einstein

Albert Einstein disse que a lógica pode nos levar de A até Z e que a imaginação nos leva a todos os lugares.

E o que podemos fazer quando a imaginação substitui completamente a lógica e os lugares a que somos levados são todos sombrios?

O que fazer quando a imaginação deixa de sonhar e só nos traz pesadelos?

Qual é a lógica por trás do funcionamento de um cérebro que não está querendo mais funcionar?

Onde está a tomada? Onde desligamos a corrente? Quando poderemos ligá-la novamente?

Quem escolhe o caminho: a lógica ou a imaginação?

Será a realidade tão dura, que a imaginação decide logicamente deixar de seguir a lógica real?

Será a lógica tão dura, que nem a imaginação consegue fugir da realidade?

Por que criar uma realidade imaginária pior do que a realidade?

É, realmente, a lógica não nos levará a lugar nenhum. Só nos resta imaginar como alguém sofre ao trocar a realidade por pesadelos constantes e aterradores e rezar para que a nossa imaginação continue nos levando para mundos melhores – agora e sempre!

Fotoreise Island

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Alex

Antes mesmo de aprender a usá-las corretamente, Alex descobriu o imenso valor das pernas. Ainda bebê, sentado no chão de terra batida do casebre no qual nasceu, descobriu que, se as esticasse e encolhesse rapidamente, conseguia sair do lugar e, consequentemente, fora do caminho do seu pai. Assim que ouvia o portão rangendo, as pernas do pequenino se contraíam e esticavam até que ele estivesse a salvo debaixo da mesa, do armário ou da cama. Essa habilidade aracnídea livrou-o dos pontapés e chutes disferidos pelo seu genitor, que tinham como alvo tudo e todos que ousassem cruzar o seu caminho tortuoso entre a porta e o sofá. Alex já havia cansado de ser bola chutada a escanteio, dor tão doída que o deixava mudo, sem lágrimas, gemendo baixinho no canto mesmo onde caía que, ao descobrir o caminho da salvação, havia nascido de novo. Portão rangendo, pernas de aranha, o mundo seguro e sem dor visto por debaixo dos poucos móveis. E assim, como por um milagre, Alex vingou. O primeiro filho do casal que sobreviveu aos pais. Logo suas pernas finas se firmaram e o menininho começou a andar e a porta da sua casa abriu-se para o mundo. Durante o dia corria no quintal atrás das galinhas e do cachorro sarnento, durante a noite embolavam-se menino e cachorro embaixo de qualquer coisa que lhes desse abrigo e não os deixasse à vista do pai. A mãe, coitada, era grande demais para caber embaixo das coisas e, religiosamente, recebia os chutes e socos do marido, cuspindo um dente aqui e outro acolá, a carne mais sovada do que pão, ossos meio tortos. Mas, valente, sempre se levantava no dia seguinte e, se não tinham muito o que comer, sobreviviam com o que Deus dava. Um bocadinho de café e cuscuz. Das galinhas magras era aproveitado até o sangue, que tinha um gosto esquisito, mas que, segundo a mãe, era muito bom para crescer.

Um dia o pai chegou de mansinho e, pegando Alex distraído, resolveu dar-lhe todos os pontapés e chutes guardados desde a última vez que tinha conseguido acertar o menino. A mãe geralmente não se metia com o marido, mas viu que, se não interferisse, ele acabaria aleijando o filho. A fúria do homem então se voltou toda contra ela. Alex assistiu através da frestinha do olho inchado de tanta pancada que ainda conseguia abrir, o pai matando a mãe.

No orfanato Alex foi feliz. Podia jogar bola com os outros meninos, correndo o campo todo, rápido como o vento. Tinha uma cama quentinha e comida todos os dias. Até o dia que seu tio veio buscá-lo, ele viveu como num sonho. Acordou dentro de um pesadelo. O tio tinha o mesmo gênio do pai e, depois da terceira surra, as pernas de Alex o levaram para longe dali, rumo à capital. Ao ver a praia pela primeira vez, o menino pensou que tinha morrido e chegado ao paraíso. Suas pernas não se cansavam de correr pela areia, seus pés encharcados de água até os tornozelos.

Flanelinha, Alex, rápido e simpático, conseguia dinheiro suficiente para comer todos os dias. Dormir enrolado embaixo de alguma marquise não era tão diferente do que dormir embaixo dos móveis familiares. Não tivesse conhecido o orfanato, poderia dizer que era feliz.

Mas, como tem gente ruim em casa, na rua também tem. Alex passou a ser alvo dos outros moleques maiores. Eles ficavam o dia inteiro sem trabalhar e depois se juntavam para tirar o dinheiro do menino. Ele, sendo mais rápido, conseguia fugir algumas vezes. Mas, quando apanhado, sentia na carne a vingança dos outros.

Foram eles que deram crack para o Alex provar. Ao inalar a fumaça, Alex sentiu que suas pernas ficaram tão leves, tão leves que criaram asas. As asas de Alex o levaram para longe, muito longe, para um mundo que ele não sabia que podia existir, para uma felicidade que parecia infinita.

Alex nunca mais quis deixar que seus pés pousassem por muito tempo no chão. Trabalhava dia e noite olhando carros para conseguir o dinheiro da droga, e, quanto mais alto voava, mais alto queria voar. Mas até mesmo pernas voadoras têm que comer. O dinheiro escasso não dava para as duas coisas. Mendigar um prato de comida pela primeira vez doeu tanto quanto uma surra das bem dadas. Mas, aquelas pernas se adaptavam a tudo e, ao invés de correrem incansáveis de um lado para outro o dia inteiro, cruzaram-se sentadas num chão de uma esquina, as pupilas dilatadas, o coração acelerado, a boca seca e as mãos em súplica.

As brigas por causa da droga, os pequenos furtos atraíram a polícia, que passou por lá deixando sua marca nos corpos daqueles farrapos humanos. Agora Alex jaz deitado no chão da esquina, encolhido num canto, tão magro e queimado de sol que sua pele parece enrugada, sua boca quase em dentes e seu olhar apagado nos lembram o de um ancião. Ele se sente cansado, um velho de 15 anos. Não que ele saiba sua própria idade. Pessoas como ele não têm idade. Elas têm anos de sofrimento. Sofrem surras, injúrias, fome, sede, cansaço, frio, humilhações e indiferença. Sofrem até o dia em que Deus sente piedade delas e as levam daqui para um mundo melhor, sem sofrimento. Ao chegar neste mundo, as pernas de Alex voltam a criar asas e lá vai ele correndo, voando, jogando bola nos gramados verdejantes infinitos, abrindo um sorriso cheio de dentes branquinhos, inteiros.

 Não tem nada que me deixe mais triste do que ver pessoas abandonadas nas ruas. O termo morador de rua é uma ironia. Ninguém mora na rua. Ninguém escolhe conscientemente ir para a rua. A rua não é uma opção. As pessoas são abandonadas lá por suas famílias e pela sociedade, que passa por elas, indiferente, escolhendo vê-las como a parte feia e suja da paisagem urbana.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Meu novo livro

Acabei o meu segundo livro!

Mas, ao contrário da outra vez, meus amigos e familiares não precisam se preocupar em ter que comprar o livro. Aliás, a probabilidade de eles o lerem é muito pequena. E, mesmo se o fizerem, não saberão que fui eu quem o escreveu.

O meu segundo livro não é exatamente meu. Fui eu quem o escreveu, mas meu nome não aparecerá em lugar nenhum. Ele é o fruto de um contrato de “ghost writing”. Não se preocupem: eu não precisei experimentar nenhum fenômeno sobrenatural para fazê-lo.

Uma pessoa me contratou para que eu escrevesse o livro no seu lugar. Ela me passou um tema e as linhas gerais para cada capítulo. Me enviou alguns textos para inspiração e gravou alguns vídeos com as ideias principais de cada capítulo. Coube a mim desenvolvê-las.

A prática não é muito divulgada, mas é, com certeza, muito utilizada.

Muitas pessoas têm boas ideias, mas, muitas vezes, não têm nem o tempo, nem a habilidade para colocá-las no papel. Ao contratar um “ghost writer”, elas têm a chance de divulgar suas ideias para o público em geral.

Para ser um “ghost writer” é preciso ter muita paciência e, principalmente, muita humildade. Quando escrevemos para os outros temos que acatar os seus pontos de vista. Somos obrigados a reescrever os textos até que eles estejam de acordo com o tom que a pessoa que o contratou quer. Mesmo que, na sua opinião, o texto fique pior do que era originalmente.

O desafio é grande. Temos que aprender a pensar como a pessoa pensaria. Temos que nos retirar de cena e comandar tudo nos bastidores. Temos que saber que os créditos nunca serão nossos.

Mas, como tudo tem o seu lado bom e o seu lado ruim, se não temos os créditos, também não temos as responsabilidades. Se o livro vender bem ou não, o meu pagamento já está feito. Eu não preciso constranger amigos e familiares a comprarem meu livro, e, pior ainda, a lerem e comentarem um livro que nunca teriam comprado ou lido se não fosse pelos laços de amizade e familiares. Não terei que cobrar pelos livros não pagos ou ficar envergonhada por cobrar por algo que, se pudesse, daria de graça para todos.

Talvez, quem sabe, um dia meus dois livros se encontrem em um canto qualquer de uma livraria. E, embora completamente distintos, se sintam atraídos um pelo outro e se tornem amigos inseparáveis, unidos pela irmandade da alma. Só rezo para que a atração não seja tamanha que os levem a um caso incestuoso.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Pânico de ter síndrome do pânico

Há alguns meses, eu criei a “consciência” de que eu tinha um coração. Antes, eu sabia que ele existia, mas nunca tinha prestado tanta atenção aos seus batimentos. Comecei a acordar de noite sentindo o coração bater forte. O mesmo ocorria durante o dia.

Além da taquicardia, eu comecei a ter fortes dores no peito e fui parar no pronto-socorro.

O médico que me atendeu foi muito atencioso e, depois de realizar alguns testes, sugeriu que eu procurasse um cardiologista para checar os episódios de taquicardia, mas que achava que não era nada preocupante. Me perguntou se eu tinha refluxo e, ao ouvir minha resposta positiva, me sugeriu também procurar um gastroenterologista para verificar a dor no peito, que poderia ser causada por algum problema estomacal. A sua terceira sugestão foi para gerenciar o stress, pois tudo o que eu estava sentindo poderia ser gerado por stress, ansiedade e até mesmo pânico.

Resolvi seguir os seus conselhos e consultei um cardiologista que, depois de alguns exames, viu que eu realmente tinha alguns episódios de taquicardia, mas que não tinham relação com algum problema físico e sim com stress.

Ele me receitou um remedinho para “dar uma desacelerada” no coração.

Ao mesmo tempo consultei uma psiquiatra, que, depois de eu contar o que tinha ocorrido, me fez exatamente 5 perguntas e obteve as seguintes respostas:

1) Você chora com muita frequência sem motivo?

Não. Mas choro fácil assistindo filmes ou lendo livros que me emocionam.

2) Como estão as coisas no trabalho?

Estão ótimas. Gosto bastante dos meus alunos e das aulas que estou dando no momento.

3) Como você lida com a depressão e a síndrome de pânico da sua mãe?

Está cada vez mais difícil. Eu não sei mais o que fazer e sinto que a situação está me deixando doente. Fico preocupada, pois sei que ela conta comigo, mas não tenho mais forças para lutar contra uma coisa que ela mesma não quer lutar. As crises de choro e as ameaças de suicídio estão literalmente me matando.

4) Você é casada?

Não.

5) Tem filhos?

Não.

Diagnóstico: “Você nem precisa passar no gastroenterologista. Você não tem nada físico. Você teve um ataque de pânico e está começando uma depressão. Vai tomar um antidepressivo que tem sido bem aceito e voltar daqui a um mês.”

Saí de lá com o antidepressivo, entrei em um fórum de usuários e saí dele rezando para nunca precisar usar aquela droga.

Não tomei o antidepressivo e fui ao Gastro, que, depois de uma endoscopia, descobriu que eu estava com uma esofagite de refluxo, além de gastrite. Ele me disse que a dor que eu tive e estava tendo era da esofagite e me deu um tratamento.

Eu já estava tomando o remedinho dado pelo cardiologista, que tinha realmente dado uma “desacelerada” no coração.

Comecei então a sentir tontura e minhas mãos ficavam geladas. Como minha mãe tem síndrome do pânico, sei que estes são alguns dos sintomas. Eu estava decidida a não deixar que eles tomassem conta de mim e andei uma semana inteira pela cidade trabalhando e passando mal. Até que um dia, passando por um local onde estavam tirando a pressão, resolvi checar a minha, que estava muito baixa.

Fiquei aliviada, pois minha tontura e minhas mãos geladas não eram pânico.

Liguei imediatamente para minha médica favorita (minha prima) que me disse que o remedinho que eu estava tomando abaixava a pressão. Me disse para tomar só metade da dose e ligar para o cardiologista. Ele recomendou então que eu ficasse só com metade da dose. Depois de uma semana eu comecei a me sentir um pouco melhor, mas minha pressão voltou a cair. Prima (parar o remédio e ligar para o cardiologista), cardiologista (parar o remédio e tomar um calmante natural). O cardiologista foi extremamente atencioso, me ligou vários dias para me passar as orientações e conversou comigo (tanto na consulta, quanto por telefone) muito mais tempo que a psiquiatra. Resolvi então, confiar nele e comecei a tomar o calmante natural.

Até então, já tinham se passado 2 meses e, embora eu já tivesse fazendo o tratamento para esofagite há um mês, a melhora tinha sido bem pequena. Como eu só estava fazendo o tratamento com medicamentos, resolvi adotar uma técnica que eu aprendi há muitos anos quando tive problemas crônicos de gastrite. Comecei a cortar tudo o que eu sentia que me fazia mal. Quem me conhece, sabe que eu já não como diversas coisas. Pois é, agora a lista cresceu um pouco. 🙂

Além de mudar a alimentação, mudei hábitos: deixei de dormir depois do almoço 😦, não como nada depois das 6 horas e levantei a cabeceira da cama.

Comecei então, a melhorar. Ainda tenho alguns episódios de dor, mas bem pequenos. Comecei a introduzir algumas coisas que eu tinha cortado da minha dieta. Mas estes dois meses me abalaram muito. O pânico de ter síndrome de pânico me deixou, literalmente, em pânico.

Eu sei que nenhum de nós está acima destes desequilíbrios químicos e só eu sei o que minha mãe tem passado com esta doença.

Espero, sinceramente, que eu consiga superar tudo sem a ajuda química. Pois, sei também o que um remedinho pode causar. Começamos com um e quando vemos estamos com dez.

Mas todo este episódio foi uma lição de humildade. Na correria do dia-a-dia, nos esquecemos de prestar atenção aqueles que mais precisam.

Era o que eu estava fazendo com a minha mãe. Eu estava suprindo as suas necessidades físicas, mas tinha desistido de tentar suprir as emocionais.

Eu deixei meu instinto de sobrevivência falar mais alto que o meu filial. Mas me esqueci de que sobreviver não é viver.

Ainda não tenho a menor ideia de como ajudá-la, mas eu tenho a certeza de que eu realmente preciso tentar mais.

Eu sei que o que ela passa é 100 vezes mais forte do que eu passei. Eu não sei como ela aguenta, uma vez que a sensação é horrível.

Nós não podemos nunca nos esquecer de nos colocarmos no lugar do outro. Pois, se não o fizermos, a vida nos colocará.

Agradeço a Deus pela oportunidade e peço forças para ajudar a quem mais precisa. O caminho ainda é longo e eu não sei como começar, mas ele está aberto para aqueles que tiverem a coragem de o trilhar. Eu estou disposta a tentar, o desafio é o de convencê-la a tentar também.

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Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

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Source: Pânico de ter síndrome do pânico

Muito Obrigada/ Thank you very much

Não importa a posição em que você esteja neste momento da sua vida, se você olhar para um lado você sempre verá pessoas em situações bem piores que a sua. E, se olhar para o outro, pessoas em situações bem melhores. Um olhar atento irá lhe mostrar que muitas pessoas, que aparentemente estão vivendo situações piores, estão mais felizes que você. O oposto também é verdadeiro: aqueles que parecem abençoados por tudo o que possuem não são, muitas vezes, felizes.

Não perca o seu tempo comparando a sua vida à vida dos outros. Viva o momento presente da melhor forma possível. Tudo é questão de atitude. Uma atitude positiva pode mudar fatos adversos. Não é fácil, mas é totalmente possível.

Que em 2016 possamos encontrar serenidade para encarar de frente todos os desafios, que saibamos saborear os momentos felizes e digerir os problemas sem grandes indigestões.

It does not matter which position you are in your life right now, if you look to one side, you will always see somebody in a worse situation. If you look to the other side, you will see somebody in a better situation. If you look closer, you will see that, many times, people who are apparently living in worse conditions are happier than you are. The opposite is also true. People living better lives are not always happy.

Do not keep comparing your life to others’. Live it the best way possible. Everything is a matter of attitude. A positive attitude can change negative outcomes. It is not easy, but it is possible.

I hope that we can find courage to face our challenges, knowledge to solve our problems and time to cherish the important things in our lives.

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Feliz Ano Novo!

Happy New Year!

سنة جديدة سعيدة

La mulţi ani!

Frohes Neues Jahr!

Felice Anno Nuovo!

नया साल मुबारक हो!

¡Feliz Año Nuevo!

Godt Nytår!

Godt Nyttår!

Bonne Année!

Yeni Yılınız Kutlu Olsun!

नया साल मुबारक हो!

শুভ নববর্ষ!

Šťastný Nový Rok!

Srečno novo leto!

Hyvää Uutta Vuotta!

Tau Hou Ka hari!

С Новым Годом!

Bem-vindos à segunda metade da minha vida

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que alguém me chamou de senhora. Foi numa biblioteca do SESC e, se não fosse pela polêmica causada, eu acho que o fato teria passado em branco. Um dos atendentes me chamou de “senhora” e o outro, indignado, lhe disse que eu, obviamente, não era uma “senhora”. Imagina chamar esta mocinha de “senhora”. O coitado quis se explicar e disse que não havia me chamado de “senhora” por me achar velha e sim por respeito. O outro, que queria mesmo pegar no pé dele, replicou que então ele deveria ter me chamado de “senhorita”. O primeiro, querendo agora se defender, lhe explicou que senhora era usado para mulheres casadas e senhorita para solteiras. Como ele não sabia se eu era casada ou solteira, tinha optado por “senhora”. Tal observação foi seguida da óbvia pergunta sobre meu estado civil. A declaração da minha solteirice e minha falta de vontade de continuar a polêmica deram a vitória ao segundo atendente, que passou imediatamente a me chamar de você e, se eu lhe desse um pouquinho mais de atenção, teria pedido meu telefone.

Eu tinha então 28 anos e até mais ou menos meus 35, as pessoas não me chamavam de senhora. Desde de então, um “senhora” aqui e outro acolá, até que – não sei quando! – o “senhora” passou a ser a regra. Principalmente partindo de mulheres. Elas são sempre mais implacáveis com os sinais do tempo que marcam as outras.

Recentemente, um caso inverso aconteceu. Uma aluna me chamou de você. A outra, indignada, lhe disse para ter mais respeito e lhe perguntou se ela chamava os pais dela de você. A confusão foi então armada. Uns dizendo que eu tinha idade para ser “você” e outros dizendo que “senhora” era só por uma questão de respeito, pois era óbvio que eu não tinha a idade dos pais dela. Tive que resolver a questão perguntando a idade dos pais. E, realmente, eu não tinha a mesma idade deles. Eu era 10 anos mais velha! Ao ouvirem minha idade todos protestaram e ninguém acreditou. Eles achavam que eu era muito mais nova.

A grande maioria das pessoas fica surpresa quando digo minha idade, mas o “senhora” já é uma realidade cotidiana e, se eu tiver a mesma sorte das minhas avós, pode-se dizer que eu sou uma senhora de meia-idade. Os meus 47 anos podem ser o marco da metade da minha vida.

Muitas pessoas ficariam deprimidas com esta conclusão, mas eu faço parte do grupo da “metade cheia”. Sendo assim, bem-vindos à segunda metade da minha vida.

Gostaria de agradecer a todos os que estiveram nela até o momento – seja com mais ou seja com menos frequência. Foi um prazer tê-los comigo e será um prazer imenso ter o privilégio de contar com vocês na segunda metade que se inicia. Que venham novos amigos, novos amores, novos desafios e novas experiências. Que as decepções sejam impulsos para novas conquistas. Que eu tenha coragem para fazer aquilo que eu nunca tive. Que um mundo de novos horizontes se abra e que eu aceite as mudanças de forma sábia (como convém a uma senhora de meia-idade) e saiba me adaptar às novas circunstâncias.

Que a segunda seja tão boa quanto à primeira!