Alex

Antes mesmo de aprender a usá-las corretamente, Alex descobriu o imenso valor das pernas. Ainda bebê, sentado no chão de terra batida do casebre no qual nasceu, descobriu que, se as esticasse e encolhesse rapidamente, conseguia sair do lugar e, consequentemente, fora do caminho do seu pai. Assim que ouvia o portão rangendo, as pernas do pequenino se contraíam e esticavam até que ele estivesse a salvo debaixo da mesa, do armário ou da cama. Essa habilidade aracnídea livrou-o dos pontapés e chutes disferidos pelo seu genitor, que tinham como alvo tudo e todos que ousassem cruzar o seu caminho tortuoso entre a porta e o sofá. Alex já havia cansado de ser bola chutada a escanteio, dor tão doída que o deixava mudo, sem lágrimas, gemendo baixinho no canto mesmo onde caía que, ao descobrir o caminho da salvação, havia nascido de novo. Portão rangendo, pernas de aranha, o mundo seguro e sem dor visto por debaixo dos poucos móveis. E assim, como por um milagre, Alex vingou. O primeiro filho do casal que sobreviveu aos pais. Logo suas pernas finas se firmaram e o menininho começou a andar e a porta da sua casa abriu-se para o mundo. Durante o dia corria no quintal atrás das galinhas e do cachorro sarnento, durante a noite embolavam-se menino e cachorro embaixo de qualquer coisa que lhes desse abrigo e não os deixasse à vista do pai. A mãe, coitada, era grande demais para caber embaixo das coisas e, religiosamente, recebia os chutes e socos do marido, cuspindo um dente aqui e outro acolá, a carne mais sovada do que pão, ossos meio tortos. Mas, valente, sempre se levantava no dia seguinte e, se não tinham muito o que comer, sobreviviam com o que Deus dava. Um bocadinho de café e cuscuz. Das galinhas magras era aproveitado até o sangue, que tinha um gosto esquisito, mas que, segundo a mãe, era muito bom para crescer.

Um dia o pai chegou de mansinho e, pegando Alex distraído, resolveu dar-lhe todos os pontapés e chutes guardados desde a última vez que tinha conseguido acertar o menino. A mãe geralmente não se metia com o marido, mas viu que, se não interferisse, ele acabaria aleijando o filho. A fúria do homem então se voltou toda contra ela. Alex assistiu através da frestinha do olho inchado de tanta pancada que ainda conseguia abrir, o pai matando a mãe.

No orfanato Alex foi feliz. Podia jogar bola com os outros meninos, correndo o campo todo, rápido como o vento. Tinha uma cama quentinha e comida todos os dias. Até o dia que seu tio veio buscá-lo, ele viveu como num sonho. Acordou dentro de um pesadelo. O tio tinha o mesmo gênio do pai e, depois da terceira surra, as pernas de Alex o levaram para longe dali, rumo à capital. Ao ver a praia pela primeira vez, o menino pensou que tinha morrido e chegado ao paraíso. Suas pernas não se cansavam de correr pela areia, seus pés encharcados de água até os tornozelos.

Flanelinha, Alex, rápido e simpático, conseguia dinheiro suficiente para comer todos os dias. Dormir enrolado embaixo de alguma marquise não era tão diferente do que dormir embaixo dos móveis familiares. Não tivesse conhecido o orfanato, poderia dizer que era feliz.

Mas, como tem gente ruim em casa, na rua também tem. Alex passou a ser alvo dos outros moleques maiores. Eles ficavam o dia inteiro sem trabalhar e depois se juntavam para tirar o dinheiro do menino. Ele, sendo mais rápido, conseguia fugir algumas vezes. Mas, quando apanhado, sentia na carne a vingança dos outros.

Foram eles que deram crack para o Alex provar. Ao inalar a fumaça, Alex sentiu que suas pernas ficaram tão leves, tão leves que criaram asas. As asas de Alex o levaram para longe, muito longe, para um mundo que ele não sabia que podia existir, para uma felicidade que parecia infinita.

Alex nunca mais quis deixar que seus pés pousassem por muito tempo no chão. Trabalhava dia e noite olhando carros para conseguir o dinheiro da droga, e, quanto mais alto voava, mais alto queria voar. Mas até mesmo pernas voadoras têm que comer. O dinheiro escasso não dava para as duas coisas. Mendigar um prato de comida pela primeira vez doeu tanto quanto uma surra das bem dadas. Mas, aquelas pernas se adaptavam a tudo e, ao invés de correrem incansáveis de um lado para outro o dia inteiro, cruzaram-se sentadas num chão de uma esquina, as pupilas dilatadas, o coração acelerado, a boca seca e as mãos em súplica.

As brigas por causa da droga, os pequenos furtos atraíram a polícia, que passou por lá deixando sua marca nos corpos daqueles farrapos humanos. Agora Alex jaz deitado no chão da esquina, encolhido num canto, tão magro e queimado de sol que sua pele parece enrugada, sua boca quase em dentes e seu olhar apagado nos lembram o de um ancião. Ele se sente cansado, um velho de 15 anos. Não que ele saiba sua própria idade. Pessoas como ele não têm idade. Elas têm anos de sofrimento. Sofrem surras, injúrias, fome, sede, cansaço, frio, humilhações e indiferença. Sofrem até o dia em que Deus sente piedade delas e as levam daqui para um mundo melhor, sem sofrimento. Ao chegar neste mundo, as pernas de Alex voltam a criar asas e lá vai ele correndo, voando, jogando bola nos gramados verdejantes infinitos, abrindo um sorriso cheio de dentes branquinhos, inteiros.

 Não tem nada que me deixe mais triste do que ver pessoas abandonadas nas ruas. O termo morador de rua é uma ironia. Ninguém mora na rua. Ninguém escolhe conscientemente ir para a rua. A rua não é uma opção. As pessoas são abandonadas lá por suas famílias e pela sociedade, que passa por elas, indiferente, escolhendo vê-las como a parte feia e suja da paisagem urbana.

Fotógrafo/Photographer: Stefano Paterna (direitos reservados/copyrighted)

www.stefanopaterna.com

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