Viva a vida – Viagens e Destinos

Escrito por Valéria S. B. B. de Oliveira[1]

Fotografias de Stefano Paterna[2]

Ponta Negra – Natal – RN
© Stefano Paterna

Eu sempre amei viajar. Se me perguntassem desde quando eu gosto de viajar, eu diria que desde os dois anos de idade. Minha mãe tinha tido um aborto e tinha que ficar na cama, eu tive que ficar com a minha avó paterna. Todos ficaram preocupados, pensando que eu ia chorar e sentir falta da minha mãe, mas eu fiquei feliz em poder explorar o quintal da minha avó com os seus pequenos tesouros escondidos, incluindo seus gatos e filhotes. A casa dela se tornou um destino querido durante a minha infância. Ela costumava me levar com ela quando visitava seus amigos e familiares. Eu acho que seria correto afirmar que ela foi a minha primeira companheira de viagem e eu gostava muito de viajar com ela. [3] Alguns anos mais tarde, meu tio se divorciou e começou a nos levar aonde minha avó quisesse ir. Ele se tornou um companheiro de viagem e uma pessoa muito importante na minha vida. [4] Eu passava os feriados com eles porque eles moravam em São Paulo também. Os meus avós maternos moravam no interior de São Paulo e nós costumávamos passar nossas férias escolares lá.  Meu mundo crescia um pouco mais: do quintal da minha avó para a fazenda do meu avô. O número de pessoas também era bem maior: eu tinha milhares de tios e primos. Sempre havia pelo menos umas 20 pessoas passando as férias lá. Sempre havia alguém caindo de uma árvore, quebrando alguma perna ou braço, cortando um dedo ou dedão, correndo para o Pronto Socorro com meu avô. Muita comida sendo preparada, muitos animais sendo mortos e depois assados (Talvez seja este o motivo da minha opção “quase” vegetariana!), tarefas domésticas intermináveis. Eu amava e amo ir para lá, mas nunca é uma opção de descanso. Este é um dos motivos pelos quais eu gosto muito de viajar sozinha ou com alguém com quem eu tenha muitas afinidades. Quando tudo envolve milhares de pessoas para fazer milhares de coisas alguém tem que sacrificar algo. Minha avó amava e ama ver a casa cheia, embora seja recompensador sempre é muito cansativo também. [5] Meus pais gostavam de viajar para outros lugares também. Eles tinham um apartamento na praia e nós íamos para lá todos os finais de semana. Havia um parque marinho próximo ao nosso prédio e os treinadores nos deixavam entrar quando o parque estava fechado para vê-los cuidar dos pinguins, golfinhos e leões marinhos. Embora eu viva em uma cidade com praia hoje em dia (pode ficar com inveja!) qualquer destino que tenha uma praia maravilhosa faz parte da minha lista, principalmente quando eu preciso relaxar. A fazenda dos meus avós e a praia não eram nossos únicos destinos. Nós viajávamos bastante. Nós fomos às “Cataratas do Iguaçu” – um das Sete Novas Maravilhas do Mundo:

Cataratas do Iguaçu
© Stefano Paterna

(onde eu pisei numa cobra – primeiro acidente de viagem – e pulei nos braços de um estrangeiro – primeiro contato com um estrangeiro que só falava Inglês) e Paraguai (primeiro contato com a Língua Espanhola); Minas Gerais; Rio de Janeiro; etc.  Minha mãe reclama que eu estou sempre viajando, mas foi ela que me infectou com o vírus do viajante insaciável. Quando eu me tornei uma adolescente eu comecei a me afastar por duas razões: As bebedeiras do meu pai[6] e a atitude da minha mãe [7]. Ao invés de viajar com meus pais eu comecei a viajar com meus amigos. Minha mãe não gostava muito da ideia e assim eu comecei a trabalhar para ter dinheiro para viajar. Nós íamos para praia ou para o interior; para casa de algum amigo ou camping. Nós nos divertíamos muito e nada – nem mesmo a barraca caindo na nossa cabeça debaixo de chuva, fazendo com que todos dormissem no carro – estragava nosso prazer de viajar. Meu primeiro namorado gostava de viajar também e nós viajávamos quase todo final de semana. Nós nos dávamos muito bem e nossas viagens nos aproximavam ainda mais. Infelizmente os seus ciúmes acabaram com o nosso namoro [8] e eu comecei a viajar sozinha ou com amigas muito próximas e queridas. Foi quando eu descobri o Nordeste do Brasil e uma nova identidade brasileira. Eu sou de São Paulo, todas as minhas viagens tinham sido no Sudeste ou Sul do Brasil. A diferença entre estas regiões é imensa. Embora a língua seja a mesma há diferenças de pronúncia e até mesmo de significado. Mas a diferença mais marcante está na atitude, na maneira de ver a vida, na criação dos filhos, etc. No Sul e Sudeste o foco está todo no dinheiro e status social, na melhor educação que o dinheiro possa comprar: as crianças começam a serem avaliadas desde o jardim da infância e sofrem pressão desde pequenas. No Norte e Nordeste dinheiro é e sempre foi importante também, mas as crianças ainda podem brincar e se divertir e a música – tanto para o bem quanto para o mal – corre nas suas veias.

Carnaval – Olinda – Pernambuco
© Stefano Paterna

Não vamos nos esquecer da temperatura: sempre faz sol e calor. E as praias? Eu me apaixonei e continuei voltando até me mudar para Natal há 11 anos. Depois de viajar pelo Brasil, eu decidi fazer minha primeira viagem ao exterior. Eu escolhi a Bolívia e o Peru porque eu estava estudando Espanhol e queria ir ao Lago Titicaca e Machu Picchu. Meu mundo foi – mais uma vez – virado de cabeça para baixo!  Eu sei que o Peru mudou muito e que hoje em dia está mais moderna, mas quando eu fui para lá há 17 anos, nada podia ter me preparado para a agradável surpresa que eu tive. Tudo era tão diferente do que eu estava acostumada. Eu amei as pessoas, a comida, a cultura e a música. Eu fiquei um mês lá e fui para lugares que nem mesmo os peruanos de Lima iam. A lição mais valiosa que eu aprendi nesta viagem foi a de que devemos deixar nosso preconceito em casa para que possamos apreciar uma cultura e um modo de vida diferente do nosso.

Mara – Colca Canyon
© Stefano Paterna

Eu já comecei planejar minha próxima viagem no mesmo dia que eu voltei do Peru. Eu comecei a economizar dinheiro para viajar para a Europa (acho que já ficou claro que tudo o que eu ganhava eu gastava em viagens). Eu fui estudar Espanhol em Barcelona e fiquei numa casa de família (melhor maneira de se aprender um idioma). Durante os finais de semana – prolongados – eu viajava pela Espanha. Eu também fui para a Itália, Suíça, França e Alemanha. Toda a experiência foi arrebatadora. Ler é uma das minhas atividades favoritas e eu já tinha lido sobre muitos lugares e pessoas que tinham feito parte destes lugares. Não há palavras para descrever a sensação de poder ver o David de Michelangelo;  os jardins de Giverny de Monet; os retratos das esposas de Picasso; O Noturno de Miro; A Persistência da Memória de Dali; a arquitetura de Gaudi; esta lista não tem fim… Até mesmo a experiência de ver um campo cheio de girassóis, oliveiras ou coberto de neve foi inesquecível. E mais uma vez as pessoas, a comida, a cultura, as línguas…

Girassol
© Stefano Paterna

Nós temos que experimentar tudo que não estamos acostumados. Se quisermos comer a mesma comida; assistir os mesmo programas de TV; fazer as mesmas atividades que fazemos quando estamos em casa, não deveríamos viajar. Depois da viagem para a Europa, eu viajei bastante pela América do Sul (sempre estudando Espanhol). Quando eu me mudei para o Nordeste, eu voltei para muitas cidades da região. Desta vez, ficando mais tempo em cada uma. Atualmente vou bastante para São Paulo.

Copan (Oscar Niemeyer) – São Paulo
© Stefano Paterna

Eu vou para lá para ver meus amigos e minha família. Eu voltei para onde tudo começou. É muito bom saber que meu mundo pequenino – brincando no quintal da minha avó – se tornou cada vez maior, melhor e mais interessante por causa das minhas viagens. Pensando bem, todo mundo que é importante na minha vida viajou comigo para algum lugar. Eu fiz amigos, me apaixonei, estudei, aprendi outros idiomas e outras culturas durante minhas viagens. Viajar me modificou de uma maneira tão profunda que eu não seria a pessoa que eu sou hoje sem ter viajado tanto. Viajar me deu uma nova perspectiva de vida. Não importa para aonde você vai. O que importa é manter sua mente e espírito abertos. Desta forma você fará sempre uma boa viagem!

PS.: Não pense que meus dias de viajante estão no fim somente porque eu voltei ao ponto de partida. É tempo de começar tudo de novo. Para onde? Para qualquer destino disponível no mundo!

Myanmar - Asia© Stefano Paterna

Myanmar – Asia
© Stefano Paterna

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9 pensamentos sobre “Viva a vida – Viagens e Destinos

  1. Pingback: Viva a vida – Viagens e Destinos | balzaquianos

  2. Muito bacana Val! Seus textos são gostosos… Fora que me identifico bastante com este, pelo gosto de viajar, que vc sabe bem o quão eu gosto. Parabéns! Gde bjo

    • Obrigada. Nós não viajamos muito juntas, mas nos conhecemos por causa de uma das suas viagens. Se você não tivesse ido para a Natal e se apaixonado pela cidade hoje eu não teria uma das minhas melhores amigas!! Estarei esperando por você no mês que vem. Beijos

  3. Va,
    nos viajamos um bocado. sem rumo e sem dinheiro e era sempre muito bom.
    estou chegando ai,ja estou em contagem regressiva . me aguarde.obrigada .
    beijos
    da amiga
    yala

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